
- 文楽
- Bunraku
- O teatro onde todos têm papel: os que aparecem e os que sustentam sem serem vistos. Juntos, criam algo que nenhum deles poderia criar sozinho.
Num restaurante em Kyoto, duas jovens perceberam que faltava um lugar para acomodar nós quatro. Silenciosamente, mudaram-se para um espaço ao lado e nos cederam a mesa sem que pedíssemos. Um sorriso, um gesto discreto, um pequeno rearranjo. Trinta segundos. Nenhuma palavra.
Aquele gesto marcou.
Não por ser extraordinário. Pelo contrário: porque era completamente natural para elas. Não houve cálculo, nem expectativa, nem performance. Havia simplesmente duas pessoas que perceberam o entorno e fizeram o que lhes pareceu o melhor a fazer.
Fui ao Japão com meu marido e passei semanas num seminário com pessoas que já conhecia, e encontrei novas, com quem construí laços que ficaram. Mas o que mais me surpreendeu não foi o que vivi com os próximos. Foi o que encontrei nos desconhecidos.
O recepcionista do ryokan que se lembrou do nosso nome na segunda manhã. A velhinha no elevador que sorriu feliz por trás da máscara, como se fôssemos velhas conhecidas. O motorista do ônibus que esperou, sorridente, sem pressa e sem impaciência, até que todos estivessem sentados, e aprendeu a dizer “obrigada” só para nos agradar. Os garçons que serviam como se cada prato fosse uma entrega pessoal. Os atendentes nos cafés que embalavam com as duas mãos e entregavam com uma pequena reverência. Os vendedores nas lojas que respondiam a qualquer pergunta com a mesma atenção, mesmo que você não comprasse nada.
E então há os que não vi.
O exército invisível que acorda antes de todos, limpa o que ninguém vai notar, colhe o que vai à mesa, cozinha o que vai ser elogiado, produz o que vai ser consumido. Os que sustentam tudo sem aparecer em nenhuma foto, em nenhum agradecimento, em nenhum relatório.
Como parte do seminário ArtDO, assistimos a um espetáculo de Bunraku: o teatro de bonecos japonês, patrimônio imaterial da humanidade, onde os manipuladores ficam visíveis no palco. No início, o olhar tenta separá-los: aqui o boneco, ali o manipulador. Mas depois de alguns minutos, algo muda. A vida emerge. Os manipuladores somem da percepção, não porque se escondam, mas porque o que criam juntos é maior do que cada um deles. O espetáculo só existe porque todos, eles e os bonecos, estão lá.
O Japão me lembrou que toda cultura funciona assim.
O que sustenta aquela qualidade de presença, de cuidado, de atenção ao outro não é uma lista de regras. São acordos. Culturais, silenciosos, profundos. Acordos sobre o que é esperado de cada um, o que é considerado digno, como o espaço compartilhado merece ser tratado, o que significa fazer parte de algo maior do que você.
Esses acordos raramente são assinados. Mas quando são cumpridos, como fica evidente no Japão, a harmonia social impera.
Penso nas organizações.
Toda empresa tem sua versão do Bunraku: os atores visíveis, os invisíveis, os que aparecem nas reuniões, nos relatórios, e os que aparecem apenas quando faltam. O mesmo vale para os acordos, explícitos ou implícitos: eles estão lá. A questão é se foram constituídos com intenção ou por omissão. Se incluem todos ou apenas os que têm nome no organograma.
Essencial reconhecer que governança não é o que está escrito nas políticas. É o que se pratica quando ninguém está olhando. É o que as duas jovens de Kyoto fizeram sem que nenhuma câmera registrasse e sem que nenhum manual pedisse. Quando estávamos saindo, percebemos que elas ainda estavam lá. Meu marido, como é de sua natureza, voltou, comprou uma caixinha de biscoitos e levou para elas como um gesto de gratidão. A reação delas foi de total surpresa e imensa alegria. Vieram até nós, fizeram uma festa e pediram para fazer uma foto com a gente. Mais uma prova de que gentileza gera gentileza.
Nos dias que seguiram, recebemos esse mesmo gesto, o de dar o lugar, outras vezes. Não se tratava de um movimento isolado, mas de uma expressão genuína.
Perguntas que carrego comigo: quais são os acordos que definem a convivência em nossas famílias, nos condomínios que habitamos e nas organizações onde passamos a maior parte do nosso tempo? Você está no palco ou faz parte dos que sustentam tudo sem aparecer? Se sente reconhecido? Sabe reconhecer os demais?
Ninguém é figurante. Na vida, no teatro ou nas organizações.



