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DARUMA

DARUMA

Entre um olho e outro

  • 達磨
  • Daruma
  • O guardião dos sonhos. Um lembrete visível do compromisso que assumimos com aquilo que desejamos realizar.

 

Costumamos imaginar que as grandes viagens começam quando compramos uma passagem. Hoje penso diferente. Algumas começam muitos anos antes, quando um símbolo, uma história ou um encontro passam a nos acompanhar sem que ainda compreendamos por quê.

A minha viagem ao Japão começou vinte e cinco anos antes de eu embarcar.

Naquele tempo, eu já via Darumas em restaurantes japoneses. Aquela figura vermelha chamava minha atenção, principalmente quando aparecia com apenas um dos olhos pintados. Eu não conhecia sua história, mas havia alguma coisa naquele olhar incompleto que parecia conter uma pergunta.

Pouco tempo depois ouvi a lenda que transformaria aquele objeto em muito mais do que uma curiosidade da cultura japonesa. Contaram-me que um monge zen permaneceu durante sete anos diante de uma parede em busca da iluminação. Quando finalmente a alcançou, as pessoas passaram a representá-lo naquela figura arredondada, como uma homenagem à perseverança, à disciplina e à capacidade de permanecer fiel a um propósito. Com o tempo, o Daruma também passou a ser conhecido como o guardião dos sonhos.

Naquele mesmo ano, escolhi o Daruma como tema do cartão de Ano Novo da minha agência. Na capa havia uma frase do Dalai Lama que dizia: “Um mundo feliz é um mundo feito por pessoas que realizam sonhos.” Ao abrir o cartão, a pessoa encontrava um Daruma impresso em serigrafia sobre acetato transparente, com os dois olhos ainda em branco, acompanhado da explicação da tradição: escolher um sonho, pintar um dos olhos, deixá-lo em um lugar visível e completar o outro apenas quando aquele sonho se realizasse.

Ao longo desses anos, percebi que minha relação com o Daruma tomou um caminho um pouco diferente daquele que eu imaginava no início. Gosto da dimensão mística que o cerca. Aliás, o Japão convive naturalmente com símbolos, rituais e pequenas cerimônias que atravessam o cotidiano. É comum ver pessoas a caminho do trabalho fazendo uma breve parada diante de um templo, oferecendo uma moeda, tocando o sino, batendo palmas, fazendo uma reverência e seguindo seu caminho. A espiritualidade parece menos um acontecimento extraordinário e mais uma presença silenciosa na vida diária. Foi uma sensação que também experimentei na Índia e na Bahia, lugares onde o invisível parece caminhar naturalmente ao lado do visível.

Por isso, nunca deixei de ver o Daruma também como um amuleto. Gosto desse misticismo, dessa maneira de tornar visível aquilo que desejamos, tememos ou esperamos. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que ele era mais do que isso. Passei a enxergá-lo também como um objeto de comunicação, um símbolo capaz de transformar um desejo íntimo em um compromisso visível. Talvez seja por isso a tradição de deixá-lo sempre à mostra. O olho que ainda não foi pintado nos acompanha diariamente e nos lembra que existe alguma coisa inacabada. Não um vazio, mas um compromisso. Um acordo silencioso que continua pedindo presença, disciplina e dedicação.

Ao longo desses vinte e cinco anos encontrei muitos daqueles Darumas espalhados pelo caminho. Alguns permaneciam com apenas um olho pintado, ainda esperando pelo tempo do sonho. Outros já exibiam os dois olhos completos, celebrando uma conquista. Sempre imaginei quais histórias existiriam entre um olho e outro.

A mais bonita delas me encontrou quando eu menos esperava.

No ano passado fui conhecer o estúdio de uma fisioterapeuta que havia acabado de abrir seu próprio espaço. Enquanto conversávamos, meu olhar subiu até o alto do espelho e encontrou um dos meus Darumas observando discretamente toda a sala. Os dois olhos estavam pintados.

Perguntei como ele havia chegado até ali.

Perguntei como ele havia chegado até ali.

Ela sorriu. Contou que o Daruma havia sido um presente recebido por seu marido, um jornalista querido para quem enviei aquele cartão tantos anos antes. Ao descobrir que eu era a autora, abriu um sorriso ainda maior. Disse que, quando decidiu realizar o sonho de montar o próprio estúdio, pediu para ficar justamente com aquele Daruma. Pintou um dos olhos ao assumir esse compromisso e o outro, quase vinte anos depois, quando finalmente abriu as portas do consultório.

Saí dali com a sensação de ter recebido um presente inesperado.

Quando produzi aqueles cartões, meu desejo era simples: que os Darumas encontrassem pessoas e acompanhassem a realização de seus sonhos. Nunca imaginei que um deles voltaria, tantos anos depois, para me mostrar que isso realmente havia acontecido.

Foi exatamente essa sensação que me acompanhou durante toda a viagem ao Japão.

Eu já havia decidido que voltaria para casa com um novo Daruma. Não precisei comprá-lo. Nos últimos dias da viagem, o querido casal Meily Franco e Marco Castro, nos presenteou com um lindo exemplar para montar. Quando terminei, pintei um dos olhos com um sonho muito claro: voltar ao Japão.

Ele agora está em um lugar por onde passo todos os dias.

Não para me lembrar do Japão.

Nem para me trazer sorte.

Está ali para me recordar que os sonhos só continuam vivos quando aceitamos conviver diariamente com aquilo que ainda falta.

Talvez seja por isso que gosto tanto do Daruma.

Não pelo primeiro olho.

Nem pelo segundo.

Mas por tudo o que acontece entre um e outro.

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