Lições inesperadas sobre governança, cultura e confiança a partir de uma visita à APAC
Não foi em um evento corporativo, nem em uma reunião de conselho. Foi ao final de uma visita à unidade da APAC – Associação de Proteção e Assistência aos Condenados – que vivi uma das experiências mais reveladoras da minha trajetória profissional.
Caminhava pelo corredor do Centro de Reintegração Social Dr. Mário Ottoboni quando vi um homem segurando um enorme molho de chaves. Cabelos e barba bem cuidados, olhar vivo, sorriso no rosto. Perguntei, com curiosidade:
— Essas chaves são das celas?
Ele respondeu, com naturalidade e segurança:
— Sim, são da ala de regime fechado.
Continuei:
— Imagino que você seja um recuperando. Se não se importar, posso perguntar quantos anos você tem de pena?
— Setenta. Mas devo cumprir ainda cerca de quinze — respondeu, olhando nos meus olhos, com serenidade.
Ali, naquele instante, entendi que estava diante de algo maior. Uma estrutura onde a confiança não é apenas um valor — é uma prática cotidiana. Onde a disciplina não é repressão — é responsabilidade compartilhada. E onde a governança não depende de vigilância armada, mas de acordos coletivos, regras claras e cultura viva.
Sim, na APAC há grades e arames farpados. E isso não é uma contradição com a proposta humanizada — é cumprimento legal e parte da pedagogia. Ali, faz-se questão de lembrar aos recuperandos — assim são chamados os que passam pelo período de recuperação — e não apenas de detenção —, que estão cumprindo uma pena, pagando uma dívida à sociedade. Mas o método APAC garante muito mais do que a privação da liberdade. Ele é conduzido a partir de 12 elementos fundamentais, que incluem participação da comunidade, trabalho, educação, assistência jurídica e à saúde, suporte às famílias, valorização humana e mérito, entre outros. Esses princípios garantem que a pena — pelo tempo e motivo que for — seja vivida com dignidade, propósito e no estrito cumprimento da lei.
A disciplina é rígida. O dia começa às 6h da manhã e se organiza em torno de rotinas estruturadas: terapias individuais e em grupo, cursos profissionalizantes, estudo — incluindo ensino superior via EAD — e atividades manuais e espirituais. Há música, cultos, orações, oficinas e muita escuta. Na APAC todos são chamados pelo nome, caminham sem algemas e sempre com a cabeça erguida.
Durante o dia, eles seguem uma programação intensa de atividades organizadas em um sistema de rodízio e regras que permitem que utilizem ferramentas de trabalho como alicates, chaves de fenda, serrotes. Comem refeições saborosas com garfos e facas. A confiança é ensinada e retribuída.
Uma vez por mês, vivem um ritual de recolhimento: passam o dia inteiro trancados, sem as atividades usuais, como forma de solidariedade com os que vivem no sistema convencional. Uma lembrança viva da diferença que o método APAC representa — e do quanto é preciso valorizá-lo.
A estrutura invisível: método, regras, cultura
Nada disso acontece por acaso. A APAC é sustentada por um método que une regras claras, estrutura de integridade e uma cultura de responsabilização compartilhada. Como humanos, todos falhamos. Para esses casos, são aplicados três níveis de faltas: leves, médias e graves. Cada uma tem consequências definidas, proporcionais, coerentes. A gravidade ou a reincidência nas faltas pode culminar no retorno do recuperando ao sistema convencional — momento de muita tristeza e frustração para a APAC. Não há improviso, nem favoritismo. Isso gera previsibilidade, segurança psicológica e senso de justiça.
Além disso, conquistas são reconhecidas, valorizadas e celebradas. Cada avanço conta. A integridade é cultivada, não apenas exigida.
O princípio “recuperando ajudando recuperando” é mais que filosofia: é uma prática sistêmica. Eles se observam, se ajudam, se desafiam com respeito. Criam, juntos, um ambiente de corresponsabilidade, onde cada um é parte da solução.
E tudo isso é sustentado por conselhos internos que atuam como instâncias de escuta, mediação e tomada de decisão. Diálogo, confiança e clareza formam a base dessa governança viva e adaptativa — que não se impõe, mas é construída todos os dias.
O que a APAC nos ensina sobre governança
Muitas empresas investem fortunas em programas de compliance, cultura, engajamento e ESG. Mas poucas conseguem traduzir isso em práticas consistentes.
Na APAC, os conceitos se materializam: governança não é só sobre tomada de decisão e controle — é sobre cultura e disciplina. Não é apenas sobre normas — é sobre acordos e compromisso. Não é só sobre liderança — é sobre corresponsabilidade e colaboração. E talvez o mais surpreendente: isso tudo acontece em um ambiente de privação de liberdade. O que nos leva a uma pergunta incômoda, porém essencial:
Se é possível implementar esse nível de cultura, confiança e integridade em um centro de recuperação, com pessoas muitas vezes sem preparo, marcadas por traumas profundos e com recursos limitados, por que ainda é tão difícil atingir esse engajamento em organizações bem-sucedidas?
A lição que fica
Governança não é feita apenas de estruturas, documentos e discursos. Ela é feita de pessoas, rituais, símbolos e escolhas consistentes. É feita de líderes que inspiram — e de grupos que se sustentam mutuamente.
Na APAC, vi a materialização de algo que o mundo corporativo ainda busca: uma governança que transforma. Que não apenas impõe regras, mas forma e desenvolve seres humanos. Que sustenta organizações que geram valor e impactos positivos para pessoas, instituições e para a sociedade.
E talvez seja exatamente disso que o mundo precise agora: autorregulação, com menos controle pelo controle — e mais confiança, solidariedade e responsabilidade.
Agradecimento ao Programa Lideranças Virtuosas e seus coordenadores Alexandre Di Miceli, Angela Donaggio e a Valdeci Ferreira, diretor do CIEMA – Centro Internacional de Estudos do Método APAC.
