Toda inteligência termina em uma tomada?

O apagão que paralisou a Europa mostra que a grandeza da tecnologia é limitada pela dependência de um insumo básico e sistêmico — a energia — e pela ausência de uma governança global eficaz.

No meio do dia 28 de abril de 2025, partes da Europa enfrentaram um colapso abrupto. O apagão que atingiu Espanha, Portugal e parte da França não apagou apenas luzes: silenciou hospitais, interrompeu trens, travou redes de telecomunicação e paralisou a operação de inteligências artificiais e sistemas digitais essenciais.

Foi um lembrete brutal: por trás da imensa complexidade que nos deslumbra — carros autônomos, assistentes virtuais, blockchain, IA generativa — tudo ainda depende de algo elementar: a energia elétrica que flui silenciosamente até a tomada.

Sem energia, a inteligência artificial é apenas código morto. Sem energia, bancos não funcionam. Indústrias não operam. Mercados paralisam.

Vivemos hoje em uma sociedade hiper conectada que acredita ter alcançado um patamar de autonomia e invulnerabilidade tecnológica. O apagão europeu expõe o contrário: revela nossa absoluta dependência de uma infraestrutura frágil e, pior, de um sistema de governança global que não está à altura dos desafios contemporâneos.

E o impacto não se restringe à Europa. Um avião que não decola, um produto que não é entregue, sistemas bancários travados, interrupções nas cadeias globais de informação e suprimentos — em um mundo interdependente, uma falha energética regional gera ondas de instabilidade que se propagam em escala planetária.

Na prática, o cotidiano parou. Semáforos apagados transformaram o trânsito em um caos. Pessoas não conseguiam se locomover, trens ficaram paralisados em todo o país, e sistemas de pagamento eletrônico falharam, impossibilitando o uso de cartões de débito e crédito. A comunicação foi drasticamente reduzida — a maioria das informações só era acessível por meio de rádios de pilha. O apagão evidenciou que a dependência da energia vai muito além dos grandes sistemas: ela sustenta o funcionamento básico da vida em sociedade.

O Brasil, como outros países, já enfrentou episódios de apagões e, em diversas ocasiões, demonstrou capacidade de recuperação e resiliência. Contudo, o cenário atual é profundamente diferente. A intensificação de conflitos armados, ameaças terroristas, ciberataques e mudanças climáticas cria um ambiente de instabilidade permanente, onde falhas energéticas deixam de ser eventos isolados e passam a compor um risco sistêmico. Reiterações desses episódios podem gerar efeitos cumulativos, enfraquecendo infraestruturas, aumentando a vulnerabilidade dos mercados e comprometendo a confiança social. A energia, antes percebida como um bem garantido, torna-se um elo frágil em uma cadeia global cada vez mais tensionada.

A ONU, outrora protagonista na construção de acordos internacionais, mostra sinais claros de enfraquecimento. Mais do que nunca, o mundo precisa de espaços de diálogo permanente e de mecanismos eficazes de ação preventiva e resposta rápida a crises energéticas. Em um mundo polarizado, sem plataformas colaborativas robustas, crises energéticas podem ser catalisadas não apenas por falhas estruturais, mas também por ciberataques, sabotagens e disputas geopolíticas.

A energia é hoje o insumo essencial que sustenta não apenas a vida moderna, mas a própria estabilidade política e econômica global.

Proteger a infraestrutura energética deveria ser prioridade planetária. E, para isso, precisamos de novos pactos globais. Protocolos de segurança internacional, investimentos coordenados em resiliência, redes de resposta rápida — tudo isso precisa ser discutido com a urgência de quem compreende que, sem energia, todo o progresso é uma miragem.

Não bastam sistemas mais inteligentes, robôs mais potentes ou redes 5G mais rápidas. Sem a garantia de acesso estável, seguro e colaborativo à energia, não há futuro sustentável para sociedades, mercados ou tecnologias.

Toda inteligência artificial termina em uma tomada. A inteligência humana, não. Mesmo na escuridão, seguimos capazes de pensar, agir e reconstruir.

É essa inteligência viva, consciente e sistêmica que deve dar origem a uma nova forma de governança — uma governança que compreenda a energia como direito essencial, como bem comum da humanidade e pilar da estabilidade das nações.

O apagão europeu é um sinal claro: precisamos de uma governança colaborativa e global que proteja o que sustenta nossas vidas, nossos mercados e nossas redes de conexão planetária.

Sem energia, a tecnologia é inútil.

Sem governança, a energia é vulnerável.

Sem consciência, o futuro se perde.

O que virá depende da capacidade humana de compreender o bem comum — e agir para preservá-lo.

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