Depois de participar do painel sobre finanças verdes e comunicação no evento Sustentabilidade Brasil, em Vitória, sai com uma convicção ainda mais clara: não basta financiar a transição ecológica — é preciso torná-la compreensível, confiável e inspiradora.
As finanças verdes são instrumentos poderosos para viabilizar mudanças concretas em direção a uma economia regenerativa. Mas há uma armadilha silenciosa nesse processo: imaginar que os dados falam por si. Eles não falam. Eles apenas informam. E informação, sozinha, não gera significado — muito menos confiança. Vivemos uma era em que a sustentabilidade precisa ser, antes de tudo, comunicável.
A linguagem importa — e estrutura confiança
Reduzir 12% das emissões no escopo 2 é um dado. Dizer que isso equivale à emissão de 500 residências em um ano já se aproxima de um significado. Mostrar o bairro onde essas residências estão e o que foi feito para chegar lá é inspirar transformação. A comunicação de finanças verdes precisa ir além da exatidão técnica. Ela precisa ser vivida, sentida e compreendida. E para isso, é preciso conectar métricas à materialidade do impacto.
Nesse sentido, o avanço de normas como as IFRS S1 e S2, desenvolvidas pelo ISSB, representa um marco importante. Elas ajudam a construir uma linguagem comum entre empresas, investidores e reguladores. Da mesma forma, os princípios de Basileia III, ainda que não tenham sido criados com foco ambiental, sinalizam a importância de pensar riscos climáticos como riscos sistêmicos. A padronização, quando bem aplicada, não engessa a narrativa. Ela a estrutura.
Entre conveniência e convicção: o papel da comunicação
Mas ainda enfrentamos barreiras culturais importantes. Frases como “sempre fizemos assim”, “justo agora que eu ia colher os frutos” ou “isso só complica a operação” não são argumentos — são sintomas da resistência ao novo. E é justamente aí que a comunicação consciente se torna fundamental. Não para impor, mas para convidar. Não para convencer, mas para provocar reflexão e alinhar intenção, linguagem e prática.
O retrocesso em políticas ambientais, como se viu em países que desmobilizaram a agenda ESG nos últimos anos, evidencia que parte das adesões ainda são frágeis. Foram feitas por conveniência, não por convicção. Mas conveniência não sustenta reputação. E sem reputação, não há futuro.
Falar de finanças verdes é, portanto, falar de escolhas — e também de linguagem. O porquê antes do quanto. O impacto antes da métrica. O compromisso antes do resultado. E, sempre, a coerência entre o que se promete, o que se faz e o que se comunica.
Porque sem comunicação, não há sustentabilidade. Assim como não há governança, não há confiança, não há legado. E onde há clareza, há escolha. Onde há escolha com consciência, há transformação.
