
- 物の哀れ
- Mono no Aware
- A beleza serena da impermanência — o que passa é precioso porque passa.
Completei 64 anos diante de uma cachoeira eterna.
Foi ali que comecei a suspeitar que idade e tempo talvez sejam convenções muito menos sólidas do que imaginamos.
A cachoeira de Nachi tem cento e trinta e três metros de água em queda livre, ininterrupta há séculos. A maior cachoeira do Japão, e uma das mais sagradas do mundo, patrimônio mundial da UNESCO, parte das Rotas de Peregrinação da Cordilheira de Kii. Peregrinos caminham o Kumano Kodo há gerações: imperadores, samurais, pessoas comuns, todos buscando purificação nessa água que nunca para.
Diante da cachoeira de Nachi, o tempo se mede em séculos. Não em anos.
Cheguei ao Japão no dia 18 de maio. O seminário começou no dia 20. Meu aniversário, no dia 21. Não poderia ter sido mais simbólico.
Durante a viagem, eu havia feito uma escolha deliberada: me perder no tempo. Sabia que era meu aniversário, mas havia decidido não me prender à data. Deixar o fuso horário ser o que é: uma convenção.
Perder-se no tempo é também uma forma de toposofia (leia mais sobre clicando aqui). Ao me deslocar para o outro lado do mundo, não apenas mudei de lugar, mudei de quando. O Japão já vivia amanhã enquanto o Brasil ainda estava ontem. E eu, entre os dois, comecei a suspeitar que o tempo é muito menos objetivo do que aprendemos a acreditar.
A cachoeira de Nachi é adorada no xintoísmo como manifestação da divindade. Não como símbolo, como presença. A água que cai ali é chamada de eterna. Há uma beleza particular nessa ideia.
Eu sabia da importância daquele lugar. Ainda assim, não imaginava o impacto que teria sobre mim. Diante da força de suas águas, senti algo que raramente encontro nas palavras: a presença do sagrado.
Estava com um grupo em busca de algo além do turismo: significado. O Dr. Ado Huygens, que conduziu o seminário ArtDO, havia nos apresentado princípios da cultura japonesa que continuo incorporando de formas inesperadas. Um deles encontrou sua forma plena naquele momento:
Mono no Aware — a consciência da impermanência das coisas, acompanhada de uma beleza melancólica e serena. O reconhecimento de que tudo passa, e que é exatamente isso que o torna precioso.
Aos 64 anos, diante dessa cachoeira, aumentou minha suspeita que a idade é também uma convenção.
Ainda tocada pelos ensinamentos do Japão, a travessia do Pacífico continuou a ensinar, agora com outra linguagem: a do tempo que se dobra.
A cada dia, o relógio avançou uma hora. Pequenas correções para que o navio acompanhasse o sol enquanto navegávamos em direção ao leste. No dia 17 de junho, cruzamos a Linha Internacional de Data. Viajamos para o passado: o dia 17 se repetiu. Ganhamos um dia de presente no meio do Pacífico.
E por volta do solstício de verão, o dia mais longo do ano no hemisfério norte, enquanto nos aproximávamos do Alasca, o sol mal se punha. Havia luz onde deveria haver noite.
Dois dias 17. O dia que não acaba. Um fuso que se move.
Descobri, na relatividade desses dias, novas formas de perceber o ontem, o hoje e o amanhã.
Sinto isso como alguém que chegou ao Japão no dia 18, comemorou o aniversário no dia 21 diante de uma cachoeira eterna, e navegando sem porto fixo, ganhou um dia ainda mais iluminado de presente no meio do Pacífico.
O tempo que temi estar perdendo — os 42 dias fora da rotina — é, na verdade, o tempo em que estive mais presente.
Não me sinto diante de uma linha de chegada. Sinto-me diante da cachoeira.
A água cai. Continuará caindo.
Isso é Mono no Aware: a beleza serena de saber que tudo passa, e que é exatamente isso que nos ensina a estar presentes.
*
EM TEMPO: Este texto faz parte da série Aos 60, inspirada nas experiências vividas durante o seminário ArtDO, organizado por Alexandre Di Miceli e Angela Donaggio, Ph.D., M.Sc., com curadoria do Ado Huygens, no Japão em maio de 2026, ao lado de um grupo extraordinário.

