Era da transparência: a evolução da Governança e o papel da comunicação no ESG

O início do novo milênio trouxe à tona uma transformação profunda na forma como organizações, investidores e sociedade encaram a governança corporativa. O cenário global dos anos 1990 ficou marcado por grandes escândalos financeiros — como os casos Enron, WorldCom, Arthur Andersen, Health South e Bernard Madoff — que revelaram fragilidades severas nos controles internos e a vulnerabilidade das instituições diante de fraudes contábeis e corrupção. Essas crises, além de provocar perdas financeiras bilionárias, abalaram a confiança no mercado global e impuseram um desafio urgente para a governança: como recuperar a credibilidade e garantir transparência, ética e responsabilidade?

Em resposta a esses episódios, novas regras foram criadas para prevenir fraudes e fortalecer os mecanismos de controle. A Lei Sarbanes-Oxley, promulgada em 2002 nos Estados Unidos, é um marco nesse processo, estabelecendo exigências rigorosas sobre a precisão e a transparência das demonstrações financeiras. Pouco tempo depois, em 2004, a ONU consolidou o relatório “Who Cares Wins” (“Quem se importa, ganha”), introduzindo o conceito ESG (Ambiental, Social e Governança) como uma abordagem sistêmica que conecta a sustentabilidade dos negócios à responsabilidade corporativa.

O ESG não é apenas uma tendência, é uma resposta à pressão crescente de investidores institucionais, mídia e sistemas jurídicos que exigem maior accountability dos conselhos de administração. Essas demandas reforçaram a necessidade de uma governança atuante e abrangente, capaz de lidar com a complexidade de um mercado globalizado e cada vez mais transparente. Hoje, a governança corporativa deve navegar em um mar de normas, leis e padrões internacionais, como GRI (Global Reporting Initiative), CDP (Carbon Disclosure Project), Relato Integrado (Integrated Reporting) e o mais recente CSRD (Corporate Sustainability Report Directive), que visam monitorar o impacto econômico, social e ambiental das empresas.

Neste contexto, a comunicação corporativa assume um papel central e estratégico. A expansão das redes digitais a partir dos anos 1990 transformou a transparência de uma opção em uma condição inegociável. A comunicação eficiente não se limita mais a relatórios bem elaborados, mas envolve a construção contínua de vínculos sólidos com públicos internos e externos, alinhando valores organizacionais com as expectativas da sociedade.

O movimento ESG, ao estruturar práticas sustentáveis, se consolidou também como um poderoso mote de comunicação, capaz de engajar diversos stakeholders e fortalecer a reputação das organizações. A governança, portanto, precisa ser ativa, integrando as dimensões ambientais, sociais e de gestão às estratégias centrais para garantir não apenas a atração de investidores, mas a confiança e o engajamento de consumidores e colaboradores.

A era da transparência exige que as organizações se reinventem, assumindo a responsabilidade pelo impacto que causam no mundo e comunicando essa transformação de forma autêntica e consistente.

Como aprendi com o professor Massimo di Felice, a governança deve ser como a água viva, integrada ao seu meio. Portanto, o futuro da governança e da comunicação está no alinhamento entre propósito, ética e a capacidade de dialogar com um mercado cada vez mais consciente e exigente.

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