Em tempos desafiadores, não faltam decisões difíceis. Mas será que estamos tratando os dilemas como dilemas — e os paradoxos como paradoxos?
Dilemas exigem escolha. Entre uma alternativa ou outra. São caminhos mutuamente excludentes. Por exemplo: expandir ou consolidar? Manter ou demitir? Aqui, o pensamento do “OU” se impõe: é preciso optar por um lado, abrindo mão do outro.
Paradoxos exigem convivência. São tensões entre opostos que não se resolvem com uma escolha definitiva, mas com consciência, equilíbrio e gestão contínua. Como preservar a cultura familiar e, ao mesmo tempo, profissionalizar a gestão? Como ser transparente sem abrir mão da estratégia? Aqui, o pensamento do “E” é fundamental: é preciso sustentar as duas forças, em equilíbrio dinâmico.
Confundir dilema com paradoxo é perigoso: escolher diante de um paradoxo pode gerar rupturas desnecessárias. Conviver com um dilema pode gerar paralisia. Neste caso, saber a diferença faz toda a diferença.
Nosso mundo está cada vez mais paradoxal. Lidar com tantas tensões exige mais do que técnicas: pede escuta profunda, clareza de propósito e a capacidade de reconhecer que algumas contradições não se resolvem — se sustentam.
É tempo do “E”: da complexidade, da nuance, da coexistência, da corresponsabilidade.
Mas, muitas vezes, seguimos operando sob a lógica do “OU”: da exclusão, da urgência, do controle.
Foi com essa provocação que recebi o convite do FBN – Family Business Network para contribuir com reflexões durante o 18º Encontro Nacional de Famílias Empresárias, realizado nos dias 3 e 4 de junho, em São Paulo. O tema não poderia ser mais relevante: “Um pé em cada mundo: Vivendo paradoxos.”
Durante os dois dias do encontro, foram abordados paradoxos presentes no dia a dia das famílias empresárias, tais como: individual e coletivo; curto prazo e longo prazo; senioridade e juventude; valores e práticas; lucro e impacto; tradição einovação; emoção e razão; tangível e intangível; longevidade e finitude. Questões profundas — e, por vezes, perturbadoras — que não podem ser resolvidas de forma linear e excludente, exigindo dos envolvidos clareza, boa vontade e resiliência. Muita resiliência.
Como autora do livro “Comunicação e Governança – Parecer e Ser na Era da Transparência”, tenho observado de perto nas organizações e relacionamentos uma tensão adjacente entre imagem e essência, entre performance e propósito. O que tenho constatado é que a comunicação consciente é o fio que permite sustentar paradoxos sem abrir mão da coerência.
O papel da comunicação na gestão de dilemas e paradoxos
Se os dilemas demandam decisão clara, e os paradoxos exigem sustentação consciente, a comunicação é o elemento que possibilita atravessar ambos com lucidez e integridade.
É pela escuta atenta, sem julgamento, que conseguimos compreender as reais intenções e percepções dos outros.
É pela fala clara e intencional que tornamos visíveis os nossos próprios limites, escolhas e prioridades.
É pelo diálogo genuíno que se criam pontes entre pontos de vista divergentes — e, muitas vezes, entre mundos que pareciam inconciliáveis.
Saber comunicar, mais do que saber falar, é saber sustentar as tensões com presença, respeito e abertura. E esse talvez seja o maior diferencial das lideranças que conseguem transformar conflito em construção, incerteza em inovação, dualidade em potência.
Se o dilema exige decisão, o paradoxo convida à maturidade. E essa maturidade se revela na escuta, no equilíbrio e na coragem de sustentar o desconforto criativo.Ambos fazem parte da vida e da liderança. Saber distinguir entre um e outro é o primeiro passo para agir com sabedoria.
Por isso, diante dos desafios da vida e da liderança, é importante praticar princípios que me permito parafrasear a partir dos ensinamentos de São Francisco de Assis:
“Que eu tenha coragem para decidir diante dos dilemas, serenidade para sustentar os paradoxos — e sabedoria para reconhecer a diferença. Que onde exista um OU, eu leve um E.”
