A rede que sustenta o afeto

Em janeiro de 2024, meu pai partiu. Como costuma dizer minha mãe, com quem ele dividiu mais de 60 anos de vida: “perdi meu braço forte”. Todos nós sentimos a ausência de nosso leão — aquele que sempre nos pareceu eterno.

Foi dessa perda imensa, e da preocupação com o vazio que ela deixaria para minha mãe, que nasceu a ideia da viagem. Mais do que um passeio, seria um gesto de amor, um presente por seus 90 anos e, sobretudo, uma forma de reconectar sua história à origem do pai, nascido na pequena cidade italiana de Mansuè — descoberta por mim em 2022, em uma viagem de reconhecimento e busca por nossas raízes.

A princípio, houve resistência. Mas logo ela se engajou com entusiasmo: aumentou as sessões de fisioterapia, ficou mais forte e passou a guardar cada presente dizendo “vou levar na mala da viagem”.

E a viagem aconteceu. Foi perfeita, memorável, cheia de descobertas e alegrias. Conhecemos paisagens deslumbrantes, revisitamos lugares que fizeram parte da minha juventude e, o mais emocionante, visitamos a igreja onde meu avô foi batizado. Lá, estávamos todas: minha mãe, minha irmã, eu e meu marido. Quase um século depois, a história se completava.

Mas nada disso teria sido possível sem a nossa rede de apoio familiar — forjada em amor, dedicação e presença sincera.

Vivemos, no passado, momentos de provação. Mas seguimos unidos. Somos do tipo de família que não teme o afeto. Que diz “eu te amo” a qualquer hora e sem motivo especial. Que se abraça em qualquer lugar. E foi esse amor cultivado ao longo do tempo que sustentou cada passo dessa travessia recente.

Minha irmã Telma foi peça-chave em tudo isso. Mulher forte, generosa, capaz de atravessar madrugadas sob chuva para ajudar quem precisa — sem pedir nada em troca. Ela morava com meus pais havia anos, cuidando com entrega de tudo o que fosse necessário. Quando decidimos fazer a viagem, todos fomos unânimes: Telma tinha que ir. E assim foi. Sua primeira viagem internacional. Ver sua alegria em cada descoberta foi um presente à parte. Sempre cuidando da nossa mãe, sempre cuidando de todos nós.

E eu tive ainda outra bênção: Kalil, meu marido. Mesmo com tantos compromissos profissionais e sociais, ele não hesitou em se oferecer para nos acompanhar. Chegou alguns dias depois, mas trouxe com ele ainda mais cuidado, segurança e generosidade. Providenciou o carro, dirigiu por todo o percurso, escolheu restaurantes com carinho e, sobretudo, esteve presente — disponível, paciente, amoroso.

Enquanto isso, à distância, irmãos, sobrinhos, netos e primos vibravam a cada nova foto enviada. Todos torcendo, todos juntos. Nenhum incidente, nenhum contratempo. Apenas surpresas boas, sorrisos espontâneos e uma imensa gratidão.

Essa viagem foi possível porque passamos a vida inteira cultivando a nossa rede de afeto. Estar presente nas dificuldades nos ensinou também a estar juntos nas alegrias.

Hoje, ao olhar para trás, me dou conta: não foi apenas uma viagem. Foi um tributo ao amor que herdamos e cultivamos. E um lembrete poderoso de que as redes de apoio não se improvisam — elas se constroem, com afeto, presença e constância.

Para quem quiser saber mais sobre como foi essa jornada tão especial, compartilhei detalhes nesse texto aqui.

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