Dizer que profissionais da comunicação precisam aprender a se comunicar pode soar como provocação. E talvez seja mesmo, não no sentido de ataque, mas como um convite à reflexão.
Durante anos, escutei essa frase de líderes, conselheiros e executivos de alta gestão. No início, confesso, soava como uma crítica injusta. Hoje, a encaro como uma sinalização clara de que há lacunas que precisamos enfrentar.
Lembro bem de uma conversa marcante, em Bruxelas, durante uma imersão do mestrado. Compartilhei com meu professor, Ron Fry, minha vontade de aproximar a comunicação das decisões estratégicas, da cultura e da liderança nas organizações. A resposta foi seca e definitiva: “Isso não vai dar certo. Já tentei muitas vezes, mas temos um problema sério nessa relação. Sempre que compartilhamos questões complexas e estratégicas, a comunicação pensa que tudo se resolve com uma imagem bonita e um bom slogan. Desisti”
Naquele momento, fiquei em silêncio. Mas foi esse incômodo que me empurrou para a busca que sigo até hoje: dar à comunicação o espaço que ela merece e precisa nas mesas de decisão.
Por muito tempo, nossa atuação foi restrita, limitada por estruturas rígidas, barreiras culturais e crenças de que comunicação era apenas um meio, não uma competência estratégica. Mas o mundo mudou e segue mudando em velocidade quase insustentável. As organizações precisam de muito mais do que estética e agilidade. Elas precisam de sentido, coerência, escuta e posicionamento. Precisam de profissionais que conectem propósito com prática, discurso com resultado, dados com significado.
A comunicação corporativa, para responder a esse novo tempo, precisa sair da função meramente operacional e se consolidar como força integradora da estratégia. Isso exige quatro movimentos claros e simultâneos: formação profissional ampliada, visão compartilhada, ação colaborativa e estrutura devidamente posicionada. Só assim é possível gerar valor real, aquele que impacta resultados, engaja pessoas e constrói reputações consistentes.
Não basta saber escrever bem, fazer um bom vídeo ou conduzir uma apresentação eficiente. O que está em jogo agora é a capacidade de traduzir complexidade em clareza, sem simplificações rasas. É atravessar o ruído, a fragmentação e a ansiedade que marcam o nosso tempo, e oferecer comunicação como inteligência relacional.
E isso começa com a gente.
Porque sim, comunicadores também precisam aprender a se comunicar. Inclusive com eles mesmos. A autopercepção, o domínio emocional, a escuta ativa e a reflexão crítica são tão essenciais quanto qualquer técnica ou ferramenta. Dominar métricas é fundamental. Mas sem ética, sensibilidade e repertório, a técnica se esgota em performance.
É hora de ampliarmos nossa lente. De buscarmos menos urgência e mais profundidade. Menos reatividade e mais estratégia. A comunicação, hoje, é um dos pilares do desenvolvimento organizacional, humano e social. Mas só conseguirá cumprir esse papel se os próprios comunicadores aceitarem o desafio de crescer, de verdade, como profissionais, líderes e agentes de transformação.
Afinal, comunicar é, antes de tudo, assumir responsabilidade sobre o impacto que geramos. E isso não se faz com um slogan. Se faz com presença, escuta e intenção.
