Publicar um livro: sonho, saga e festa

A vida me ensinou que cada experiência é única. Tenho amigas e amigos que já passaram por essa jornada diversas vezes e tiram, literalmente, de letra. Pouco tempo depois de uma das experiências mais marcantes da minha vida, senti vontade de contar um pouco do que vivi, pensei e senti desde que nasceu em mim a vontade de escrever um livro.

Assim que me alfabetizei, fiquei encantada com a possibilidade de, usando palavras, dar forma e sentido às ideias e sentimentos que me povoavam. Menina ainda, escrevia durante a madrugada, lia pela manhã e rasgava tudo logo depois. Cedo descobri também que uma coisa é o desejo de transformar o universo interno e complexo em linhas traçadas e, outra, bem diferente, é conseguir. Abençoados os poetas que tocam mentes e corações com seu dom e arte. Felizes os leitores que os decifram com sensibilidade.

Foi o poder das palavras que me levou a escolher o jornalismo, sonhando em fazer justiça e defender os sem voz e os esquecidos. Mas a vida me desviou da bancada de um telejornal como eu queria, para me tornar empreendedora à frente de uma agência de comunicação corporativa por 20 anos. Nesse tempo, desenvolvi conceitos, textos, slogans, campanhas, eventos, sempre buscando mais do que vender produtos e serviços: criar significado. O maior desafio e missão da comunicação.

Essa busca me levou a praticar o desapego e deixar a agência que crescia com sucesso para mergulhar em um sabático e seguir minha busca por um sentido maior para o meu trabalho. Eu continuava apaixonada pela comunicação, mas precisava ir além. Foi o mestrado em desenvolvimento organizacional e os muitos cursos, leituras, conversas e aprendizados sobre pessoas, ética, liderança e relacionamento que trouxeram o entendimento de que comunicação e comportamento são sinônimos: o silêncio fala, um olhar destrói e um sorriso salva.

O sonho

Constatar que comunicação é muito mais do que ferramenta e utilidade acendeu em mim, pela primeira vez, a vontade de escrever um livro. Eu queria dividir essa nova perspectiva, mais complexa, humana e fascinante – que não encontrei nas escolas formais por onde passei – como contribuição para a vida das pessoas, das organizações e da sociedade.

Em 2017 uma pausa obrigatória para um tratamento oncológico me fez perceber a importância de cada momento e acendeu a vontade de correr atrás dos meus sonhos.

Abri um novo arquivo, comecei a escrever algumas páginas. Contei para alguns amigos: “estou escrevendo um livro.” A ideia era criar o compromisso e me manter motivada. Sempre que eu pensava ou falava sobre o livro, o sonho ganhava força.

A saga

Mas entre o sonho e a realização, eu precisava reservar um tempo dedicado para me sentar, focar e escrever: letra após letra, linha após linha, página após página. Mas quem disse que eu conseguia? Eu bem que me esforçava, mas o processo não rendia. O tempo foi passando e os amigos passaram a me cobrar: “e aí, quando sai o livro?”. “Em breve… estou trabalhando nisso.” E estava mesmo. Foi uma fase bem difícil. Eu queria muito, mas estava em um looping entre começar, apagar, voltar, escrever mais um pouco e desistir outra vez. Comprei manuais, li todas as dicas, pedi ajuda e… nada.

O que estava me impedindo? Lá fui eu com esta pergunta para a terapia, retiros, reflexões e conversas com pessoas queridas. Minha terapeuta deu a pista: “não busque a resposta, isso gera ansiedade e não ajuda. Apenas sustente a pergunta.” Foi um processo longo entre entusiasmo, tentativas e desistências. Minha autoestima já estava abalada. E foi justamente a autoestima que me deu a pista que eu precisava. Lá, na raiz da minha resistência, havia uma voz que me dizia bem baixinho: “não sei se você tem legitimidade para ser autora… Será que o que você tem a contar tem valor? O que as pessoas vão achar?” Sustentar esse diálogo interno – que me colocava no corner do medo e da insegurança – tomou muito tempo, energia e coragem.

Eureka! Para conseguir escrever, eu precisava, antes de tudo, me autorizar a fazer isso. O que também não foi simples. Pode parecer óbvio, mas não é. Você já se sentiu assim?

Superada esta etapa essencial, cheguei a outro dilema: sobre o que escrever? Chegando aos 60 anos, com tantas histórias para contar, o que poderia valer a pena? Coloquei em prática um aprendizado importante: na dúvida, pergunte e escute. Foi o que eu fiz.

Procurei colegas, clientes e amigos para saber: a partir do que você conhece de mim, como posso contribuir? Recebi muito apoio e estímulos e percebi que estava no caminho certo. Não, ainda não era hora de me aposentar. Conversando com uma profissional e amiga que admiro, encontrei a vereda: “Vania, por favor, fala com o meu chefe.” Era um pedido de ajuda verdadeiro e urgente.

A chefia, neste caso, eram o CEO e os membros do Conselho, perfis que tive o privilégio de conhecer, acessar e conviver como voluntária, aluna, instrutora no ambiente da alta liderança e, mais recentemente, como conselheira independente. A governança corporativa se tornou uma causa que me motiva a seguir aprendendo, mas sempre tendo a comunicação como foco e prioridade. Tinha, finalmente, achado a pista para esta primeira produção: compartilhar no livro a minha experiência e a de profissionais incríveis que conheci e com quem criei vínculos de amizade, respeito e admiração. Fazia sentido porque tinha legitimidade e consistência para atender uma demanda real.

A partir daí, com a intuição clara, o caminho se abriu e o processo fluiu. Fiz uma lista de pessoas diversas, complementares e reconhecidas. Mandei os convites e, para a minha alegria, todos aceitaram imediatamente. Um sinal claro de que eu estava no caminho certo. Assinar o contrato com a Editora Aberje marcou uma etapa com ainda mais compromisso. A partir daí, foram 18 entrevistas, edições, revisões e outras revisões. O projeto editorial, que deve sempre ser o primeiro passo, foi revisitado, alterado, ajustado e reinventado muitas vezes para acomodar tudo o que emergia do texto em cada etapa. O livro é vivo, tem humores e uma identidade que vai amadurecendo ao longo do tempo.

Quando o livro fica pronto? Taí uma resposta difícil. Criar os capítulos de abertura, distribuir as entrevistas, absorver novas informações, fontes e dados que chegam o tempo todo é uma experiência de desassossego. Depois de incontáveis leituras, a versão final parecia estar sempre na próxima fase. Posso dizer que essa foi uma etapa insana. A minha sensação era de que nunca conseguiria terminar. Mas a pressão pelo prazo combateu o perfeccionismo e, um dia, salvei o arquivo e enviei ao editor.

Não, para ter um livro não basta escrever: é preciso editar, ir e voltar, editar de novo em um novo looping. Depois vem o projeto gráfico – que também tem seu vai e vem – diagramação, revisão, revisão da revisão, revisão da revisão da revisão. Enquanto isso, o título também é testado e retestado, junto com o dilema da capa. É tudo muito intenso ou, pelo menos, foi para mim.

Neste ponto, a pressão é pelo orçamento e pelos prazos da gráfica. A prova, a liberação e, finalmente, a impressão.

Tudo tranquilo? Que nada… a ansiedade para ver tudo pronto tira o sono e dá taquicardia. Alguns dias de atraso, mais um teste de paciência até chegar o dia de abrir um pacote embrulhado com papel craft, rígido e bem selado. Hora do esforço final para pegar nas mãos a realização do sonho que cumpriu a saga.

Uma amiga me mandou uma mensagem que está na “Trilogia de Copenhagen” e que diz que ver as letras impressas confere um ar de algo definitivo, do que você fez ou acredita e não pode ser mais alterado, é como você se apresenta ao mundo!

A festa

Olhar para o livro nas mãos foi como ver a face de um filho muito esperado. Sei que é uma frase comum, mas descreve bem a emoção e o tanto de hormônios circulando pelo corpo. Uma enorme alegria. Folheei, li alguns trechos e fiquei imaginando a reação dos leitores. Algo que só saberei quando o livro ganhar o próprio destino.

A data do lançamento já estava marcada e tudo foi escolhido com cuidado. Eu sabia exatamente onde eu gostaria que fosse e não me importei de esperar um pouco mais para ter esse desejo atendido. O convite foi publicado nas redes e mandei individualmente também para todas as pessoas que importavam para mim.

Semanas de espera e dias de ansiedade faziam o relógio correr mais rápido ou devagar. Por um tempo, tudo pareceu descompassado. No dia 26 de março de 2025, cheguei à Livraria da Travessa, um dos espaços mais belos que conheço, com seu pé-direito altíssimo e suas paredes coloridas e iluminadas por lombadas de saber que pareciam mais lindas do que nunca. Cheguei às 18h30, pontualmente no horário combinado, mas, para minha surpresa, encontrei uma longa fila de amigos ilustres que já me esperavam. A partir desse instante, tudo o que vivi tornou esta noite absolutamente inesquecível. Eu esperava por umas 50–60 pessoas, mas meu sonho realizado tinha muito mais para me oferecer. Foi uma noite espetacular, uma grande festa. Mais de 300 pessoas vieram me abraçar. Pessoas maravilhosas e de diferentes “tribos”, todas trazendo seu sorriso e vibração. Muitos comunicadores, conselheiros, executivos, empreendedores, clientes, alunos, familiares, amigos, meu taxista favorito com a noiva, minha assistente de casa com o marido e a filha e até pessoas que eu não conhecia passaram por lá. “Você está radiante”, muitos me disseram. E era assim mesmo que eu me sentia: emitindo luz, brilho e calor.

A livraria fechou, o shopping também, e ainda me esperavam para os autógrafos finais. Meu coração estava cheio de alegria e gratidão. Em festa, uma festa que só foi possível porque fui capaz de cumprir e superar a saga, dentro e fora de mim. Uma longa e desafiadora saga… do tamanho do meu sonho. Valeu cada momento. Valeu superar cada etapa e superação.

Ficam sentimentos profundos e verdadeiros: gratidão por tudo o que já recebi da vida e uma vontade enorme de seguir retribuindo. Já tenho sonhos renovados e mais um livro a caminho. E você, tem alimentado e realizado seus sonhos?

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