
Algumas culturas ensinam seus valores por meio de discursos. Outras os transformam em rituais que atravessam séculos.
- 湯
- Yu
- Água quente. A água que acolhe o corpo e revela uma cultura.
Você já ouviu a palavra onsen? Sabe o que ela significa? Eu não fazia a menor ideia até chegar ao Japão.
Logo nos primeiros dias do Seminário ArtDo, nos hospedamos em um ryokan, uma hospedaria tradicional japonesa. Ao entrar no quarto, encontrei sobre a cama duas peças idênticas cuidadosamente dobradas: um yukata, um quimono leve de algodão, para mim e outro para meu marido. Ao lado deles, dois pares de chinelinhos e duas toalhas para cada um de nós — uma grande e outra bem pequena. Não entendi muito bem o motivo daquele conjunto de peças, mas logo descobriria que elas faziam parte de um ritual preservado há séculos.
Depois do jantar, a querida Noemia Gushiken perguntou com a maior naturalidade se iríamos ao onsen. Minha resposta foi imediata: “Vamos onde?”. Para nossa sorte, Noemia era muito mais do que uma parceira de jornada: filha de japoneses, havia morado no Japão durante um ano e nos ensinou a perceber, para além da língua, as sutilezas daquela cultura. Com generosidade, compartilhou conosco detalhes da tradição japonesa e nos conduziu para além da superfície, permitindo que mergulhássemos, pouco a pouco, nas camadas mais delicadas daquele universo.
Do nosso grupo, algumas mulheres se entusiasmaram com a proposta. A instrução era vestir nossos yukatas, calçar os chinelinhos e levar as toalhas. Seguimos sem imaginar que aquela seria uma das experiências mais deliciosas e marcantes de toda a viagem.
Foi então que descobri o que era um onsen: um banho alimentado por águas termais naturais, aquecidas pela intensa atividade vulcânica do arquipélago japonês. Muitos ryokans foram construídos justamente próximos a essas fontes e fazem do banho parte da experiência de acolhimento. O onsen guarda um significado que ultrapassa o relaxamento: é um ritual profundamente enraizado na cultura japonesa, praticado há séculos como uma forma de cuidado com o corpo, serenidade para a mente e convivência respeitosa. Homens e mulheres frequentam espaços separados.
Ao entrar no vestiário, deixamos as roupas, relógios e qualquer outro pertence nos armários individuais. A partir dali desaparecem quase todos os sinais exteriores de identidade. O ritual começa antes da água. É preciso despir-se completamente e, em seguida, sentar-se diante de uma pequena ducha para um banho cuidadoso. Em uma longa fileira de banquinhos, mulheres de todas as idades lavam o corpo com calma, enxáguam cuidadosamente cada vestígio de shampoo e sabonete e só então entram na piscina termal. Aos poucos compreendi que aquele banho não era apenas uma questão de higiene. Era um gesto de respeito. A água é compartilhada e cada pessoa assume a responsabilidade de preservá-la para quem chegar depois. Antes de usufruir de um bem comum, cuida para não levar até ele nenhuma impureza.
Há ainda um detalhe que ajuda a compreender a força desses códigos culturais. Muitos onsens tradicionais não permitem a entrada de pessoas com tatuagens, uma restrição que remonta à forte associação histórica entre as tatuagens e a Yakuza, a poderosa organização do crime organizado japonês. Nos últimos anos, alguns estabelecimentos passaram a flexibilizar essa regra para receber visitantes estrangeiros, oferecendo, inclusive, pequenos adesivos para cobrir tatuagens discretas. Mais do que julgar quem as possui, essa prática revela como determinados símbolos carregam significados muito específicos em cada cultura e como compreender e respeitar os acordos locais também faz parte da experiência.
Só então vem a imersão. A água é quente, muito quente. Permanece-se ali por alguns minutos, sempre com a cabeça fora da água, contemplando, conversando baixinho ou simplesmente deixando o corpo relaxar. Depois é possível sair, tomar uma ducha fria e voltar novamente, repetindo esse ciclo quantas vezes se desejar. Muitos onsens funcionam das primeiras horas da manhã até tarde da noite, permitindo que moradores e hóspedes façam daquele ritual parte do cotidiano. Em nosso pequeno grupo de brasileiras, o silêncio contemplativo deu lugar, em alguns momentos, a conversas deliciosas. Talvez tenhamos levado um pouco do Brasil para dentro daquele ritual japonês. Também isso fazia parte da experiência.
Achei que aquela seria uma vivência única. Não foi. Passei a procurar um onsen em todos os ryokans onde nos hospedamos, até chegar a uma pequena cidade que, há mais de mil e trezentos anos, construiu sua identidade em torno das águas termais.
Em Kinosaki Onsen compreendi que o ryokan não terminava na porta da hospedaria. A cidade inteira era o ryokan. As ruas funcionavam como corredores, as sete casas de banho públicas como espaços de convivência e os hóspedes caminhavam lentamente de um onsen a outro vestidos de yukata, usando geta, os tradicionais tamancos de madeira, e carregando pequenas bolsas com suas toalhas. O ritmo da cidade parecia acompanhar o discreto karakorin, o som característico das geta tocando o calçamento de pedra. Entre um banho, uma casa de chá e uma pequena loja, não havia qualquer pressa. Entendi, com o tempo, que o percurso fazia parte da experiência tanto quanto a própria água. Talvez fosse mais uma expressão do Ma (間), conceito japonês que tanto nos acompanhou durante a viagem e que reconhece o valor do intervalo, da pausa e do tempo necessário para que uma experiência amadureça.
Dentre todos os onsens que conheci, um ficou gravado de forma muito especial na minha memória. O Goshono-yu é considerado o mais belo de Kinosaki. Como acontece em todos os onsens japoneses, fotografias internas não são permitidas. A regra protege muito mais do que a privacidade de quem está ali; ela preserva a intimidade e a confiança que tornam aquela experiência possível. Vivemos uma época em que quase tudo é fotografado, filmado e imediatamente compartilhado, como se uma experiência só se completasse quando pudesse ser registrada e exibida. O onsen segue na direção oposta. Ali, a ausência de câmeras é justamente o que permite que todos estejam plenamente presentes, livres da preocupação de serem observados ou expostos. Por isso aquela lembrança permanece tão viva dentro de mim. Não tenho uma fotografia para mostrar. Tenho apenas a memória. E, curiosamente, ela continua muito mais nítida do que muitas imagens que trouxe na bagagem.
Ali, sozinha, imersa no calor intenso da água que brotava da montanha, sob a copa de árvores centenárias, ao lado de mulheres locais, idosas, jovens, grávidas e estrangeiras como eu, cada uma serenamente ocupada consigo mesma, experimentei uma inesperada sensação de completude. Nunca imaginei que pudesse viver uma experiência tão rara de intimidade cercada por pessoas que eu jamais havia visto e provavelmente nunca mais voltaria a encontrar. Havia algo de sagrado naquele silêncio compartilhado. A emoção transbordou em lágrimas, como se deixar um pouco de mim naquele lugar fosse também uma forma silenciosa de agradecer.
Quando deixei Kinosaki, percebi que o onsen havia permanecido comigo por uma razão que ia muito além do banho. Nos hospedamos em um ryokan administrado pela sétima geração da mesma família, em uma cidade que preserva, há mais de treze séculos, um ritual baseado na confiança, no respeito e na responsabilidade compartilhada. Nada daquilo parecia sobreviver apenas pela força da tradição. Sobrevivia porque cada geração recebia um legado e assumia a responsabilidade de transmiti-lo, vivo, à seguinte.
Na volta ao Brasil, compreendi que não sentia falta apenas dos onsens. O que eu gostaria de encontrar por aqui era a cultura que os torna possíveis. Uma cultura em que a confiança dispense vigilância constante porque os acordos foram incorporados à vida cotidiana; em que o respeito ao outro não dependa de fiscalização, mas de responsabilidade individual; em que pessoas completamente desconhecidas possam compartilhar um espaço de tamanha vulnerabilidade com serenidade porque sabem que cada uma honrará a parte que lhe cabe.
Um colegiado deveria aspirar à mesma qualidade de confiança. Não porque deva ser um espaço de intimidade, mas porque deveria ser um espaço onde cada pessoa chegasse simbolicamente despida de tudo aquilo que compromete o bom julgamento: agendas ocultas, interesses particulares, vaidades, disputas de poder ou a necessidade de ter sempre razão. Assim como ninguém entra na água comum sem antes cuidar da própria limpeza, talvez ninguém devesse participar de uma decisão que afetará tantas outras pessoas sem antes deixar do lado de fora tudo aquilo que possa contaminar seu discernimento. Afinal, antes de honrar um acordo coletivo, é preciso aprender a governar a si mesmo.
Costumo dizer que governança é a arte de cocriar acordos e a cultura que os honra e os aprimora ao longo do tempo. No onsen, encontrei uma das expressões mais delicadas dessa ideia. As regras são poucas, claras e compartilhadas. O controle quase desaparece porque a cultura fez seu trabalho. Talvez essa seja a forma mais sofisticada de governança que exista: aquela em que ninguém faz a coisa certa porque está sendo observado ou controlado, mas porque já não conseguiria agir de outra maneira.
Entrei imaginando que viveria apenas um banho termal. Saí trazendo comigo uma das mais belas lições de confiança que encontrei no Japão e a convicção de que, mais do que um onsen, o que desejo encontrar por aqui é a cultura que o torna possível.



