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Onde há luz, há sombra

Onde há luz, há sombra

  • 建前 / 本音
  • Tatemae / Honne
  • A face que se mostra ao mundo / E a face que se guarda.

 

Cheguei ao Japão sabendo que não ia entender quase nada.

Foram vinte e oito dias no país, quinze deles em imersão profunda na cultura japonesa, no seminário ArtDO: templos, jardins, cerimônias, filosofia, estética, espiritualidade. Tudo fascinante. Tudo complexo. Tudo maior do que qualquer interpretação que eu pudesse fazer em tão pouco tempo.

E ainda assim, ou justamente por isso, algumas experiências me tocaram mais fundo.

Como visitante, fui recebida com uma hospitalidade que raramente encontrei em outros lugares do mundo. Atendimento primoroso, cortesia genuína, precisão, cuidado com os detalhes. Uma sensação de harmonia que, por si só, já seria suficiente para encher qualquer caderno de anotações.

Viajo com o espírito de quem quer aprender e, para além do olhar de turista, observo detalhes e questiono para entender o que está abaixo da superfície. Por isso, resolvi abrir conversas para ver como isso impacta as relações de trabalho e o dia a dia de pessoas de outras culturas que vivem lá.

Franco é italiano. Trabalha como maître em um restaurante em Tóquio há oito anos. É casado com uma japonesa. Falou com afeto sobre o país e com admiração pela disciplina e pontualidade da sua equipe. E então acrescentou, com cuidado: falta algo de espontâneo, de entrega genuína. Como se o compromisso, tão real, tão admirável, fosse grande demais para deixar espaço para a paixão. Disse sentir falta da espontaneidade latina, da graça do improviso e da flexibilidade diante do imprevisível.

Maria é indonésia. Passou por Hong Kong, formou-se na Suíça e viveu uma temporada no México. Está no Japão há quatro anos. Quando perguntei se pensava em continuar morando lá, a resposta foi rápida: não. Ela gosta da organização, da ordem e da segurança, mas disse sentir muita falta dos sorrisos espontâneos, da leveza de quem parece feliz de estar onde está, e sente saudade do México. Eu disse a ela que, se o que gosta é de sorrisos, tem mais é que ir morar na Bahia.

Ouvi os dois com cuidado e com humildade. São perspectivas de dentro: de quem trabalha, convive, depende. Não são julgamentos nem verdades absolutas sobre uma cultura que eu, honestamente, mal arranho a superfície. Mas também não são insignificantes.

Os estudos japoneses têm nome para a tensão que eles descreveram: Tatemae é a face que se mostra ao mundo, o comportamento esperado, a performance da harmonia. Honne são os sentimentos reais, os desejos verdadeiros, mantidos em privado. Toda cultura carrega essa tensão. No Japão, ela é particularmente estrutural, e particularmente visível para quem vive dentro.

Também é sabido que as relações de trabalho são bastante rígidas e, em muitos casos, abusivas. O extremo desse padrão é o Karoshi: a morte por excesso de trabalho, um fenômeno documentado e reconhecido no Japão, que revela como até mesmo virtudes admiradas, como disciplina, compromisso e responsabilidade, podem produzir efeitos dolorosos quando levadas ao extremo. O compromisso com a performance e a competitividade exacerbada cobram um preço alto: o suicídio segue como uma das principais causas de morte entre os jovens, o machismo estrutural ainda relega mulheres a papéis de subserviência, ecos de violência doméstica raramente vêm à tona, e uma população que envelhece cada vez mais sozinha.

Não trago esses elementos para julgar. Trago porque me lembraram de algo que aprendi, no Japão e fora dele, sobre a universalidade da luz e da sombra.

Toda cultura tem as duas. Toda organização tem as duas. Toda relação tem as duas. E toda pessoa, se for honesta consigo mesma, também.

O Japão me ensinou sobre Shizen: a naturalidade autêntica, a ausência de máscara, a coerência entre o que se sente e o que se expressa. É um dos sete princípios Zen que atravessaram o seminário, e é, talvez, o mais difícil de praticar, justamente porque requer que o Honne tenha espaço para existir.

O custo dessa distância não aparece apenas no Japão. Ele se manifesta em organizações do mundo inteiro, onde a dimensão humana cede espaço ao protocolo e pessoas comparecem, cumprem, entregam e, em algum momento, deixam de sentir que aquilo que fazem tem relação com quem são. Seria o engajamento o equilíbrio entre esses dois aspectos?

É uma questão humana. E é uma questão de governança.

A cultura organizacional tende a valorizar o Tatemae, com seus processos cumpridos, metas batidas, discursos alinhados, enquanto o espaço para o Honne das pessoas vai se estreitando, até que ele se torna cada vez mais silencioso, inclusive para quem o sente. A melhor governança não deveria apenas orientar o que se faz. Deveria ser capaz de integrar o que se sente, e reconhecer o custo do abismo que pode existir entre os dois.

Saí do Japão sem respostas sobre o Japão. Mas com uma pergunta que ainda me acompanha:

Onde, nas minhas relações profissionais, pessoais e comigo mesma, estou exigindo Tatemae quando o que mais importa é Shizen?

A prática não é julgamento. É humildade. É compaixão. Primeiro com nós mesmos, depois com os outros.

Onde há luz, há sombra. Reconhecer as duas talvez seja o começo de qualquer reflexão honesta.

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