
Onde o ser humano compreende sua real dimensão
- 畏敬
- Ikei
- A reverência diante daquilo que é maior do que nós. O reconhecimento de que nem tudo pode ser dominado e de que há grandeza em ocupar, com humildade, o nosso verdadeiro lugar no mundo.
Depois de quase um mês no Japão, desembarquei no Alasca com a sensação de estar atravessando não apenas um oceano, mas uma fronteira entre duas formas de compreender a vida. Durante semanas, estive imersa em uma cultura que, ao longo de séculos, refinou a arte de viver, de conviver e de atribuir significado aos pequenos gestos. No Alasca, encontrei outra escola. Ali, quem educa não é a tradição. É a própria natureza.
Chegamos a Kodiak sob chuva e frio. Era verão, e minha primeira reação foi perguntar a mim mesma: se a estação mais amena já é assim, como será o inverno? Tínhamos um passeio de barco programado para conhecer a vida marinha da região e, como qualquer visitante, sonhávamos encontrar baleias. Não encontramos. Um dia antes, um grupo de cerca de cem orcas havia passado por ali. Quando chegamos, já tinham seguido seu caminho.
Naquele instante, comecei a compreender que o Alasca não seria uma viagem sobre aquilo que eu gostaria de ver, mas sobre aquilo que a natureza decidisse me mostrar.
Logo na saída do porto, um gavião pousou sobre uma placa que dizia Slow – No Wake. O aviso orientava as embarcações a reduzirem a velocidade para não produzir ondas que perturbassem a vida ao redor. Achei bonita aquela imagem. Antes mesmo de partir, havia um lembrete silencioso de que aquele território não nos pertencia. Éramos apenas visitantes em um sistema vivo que existia muito antes da nossa presença.
Seguimos navegando entre uma colônia de leões-marinhos, lontras flutuando tranquilamente entre as algas, papagaios-do-mar mergulhando em busca de alimento e montanhas ainda cobertas de neve. Tudo parecia imenso. O mar, os fiordes, os picos, o silêncio. Aos poucos, percebi que não era apenas a escala da paisagem que mudava. Mudava também a escala do próprio ser humano.
Foi durante esse passeio que conheci Stephen, nosso guia. Pai de três filhos adolescentes, morador de Kodiak havia mais de vinte anos, ele falava daquele lugar com uma mistura curiosa de realismo e encantamento. Não escondia as dificuldades. Contou que o inverno limita deslocamentos, que há períodos em que simplesmente não é possível acessar determinadas regiões da ilha, que a pesca e a caça obedecem rigorosamente às leis e, ainda mais, aos ciclos naturais.
Em determinado momento, resumiu tudo em uma única frase: “We don’t get to impose our will on it”. Não nos cabe impor nossa vontade sobre a natureza.
A partir dali, todas as peças começaram a se encaixar. Em boa parte do mundo, aprendemos a transformar a paisagem para adequá-la às nossas necessidades. No Alasca, acontece quase o oposto. É o ser humano quem organiza sua vida a partir dos ritmos da natureza.
Perguntei sobre os famosos ursos de Kodiak. Imaginei ouvir histórias sobre cercas, barreiras ou formas de afastá-los da cidade. Em vez disso, Stephen explicou que, quando os ursos aparecem mexendo no lixo, a primeira pergunta não costuma ser “como afastá-los?”, mas “o que podemos fazer para cuidar melhor do nosso lixo?”. A lógica muda completamente quando se reconhece que fomos nós que ocupamos o território deles.
Dias depois, em Homer, embarcamos novamente para conhecer outra parte da costa. Mais uma vez, as baleias decidiram não aparecer. Também ali ouvi que, na véspera, um grande grupo de orcas havia passado pela região. Sorri. Já não havia frustração. Apenas a compreensão de que a natureza não organiza seus movimentos para atender às expectativas de quem a visita.
Foi nesse passeio que conheci Caroline.
Tinha apenas vinte e um anos. Estudava na Carolina do Norte, mas sempre que podia voltava para o Alasca. Estava trabalhando como guia no seu período de férias e treinando com os locais para realizar seu sonho de tornar-se piloto de bush planes, os pequenos aviões capazes de conectar comunidades isoladas onde muitas vezes não há estradas. Perguntei por que desejava viver ali, em um lugar tão remoto e desafiador.
Sua resposta foi imediata: “Because out here, everyone helps each other. Everything I learn, I learn from people – not from the internet”. Porque aqui todos se ajudam. Tudo o que aprendo é com as pessoas. Não na internet.
Achei bonita aquela frase. Em um mundo onde conhecimento parece sinônimo de informação, Caroline falava da experiência compartilhada. Em lugares onde a natureza continua determinando as condições da vida, muito do que realmente importa ainda passa de pessoa para pessoa.
Nossa última parada foi Seward. De lá seguimos de ônibus até Anchorage, atravessando um cenário que parecia não terminar nunca. Lagos alimentados pelo degelo refletiam montanhas cobertas de neve. Em Anchorage, onde vive cerca de metade da população do estado, encontramos uma cidade acolhedora, organizada e muito diferente da imagem de isolamento que costumamos associar ao Alasca. Descobrimos que muitos moradores preferem justamente o inverno, quando acontecem festivais, atividades culturais e parte importante da vida social da cidade.
Foi no ônibus de turismo que conheci Will.
Com sua barba e cabelos brancos e seu bom humor permanente, lembrava um Papai Noel recebendo a todos com um grande sorriso. Durante o trajeto, contou histórias, fazia piadas, apresentava fatos históricos e demonstrava um prazer contagiante pelo trabalho que realizava. Na entrada do ônibus, uma placa dizia: “Enjoy the ride? Please, tip the guide”. Aproveitou o passeio? Deixe uma gorjeta para o guia. Fizemos isso com alegria, não pela recomendação, mas porque era impossível não reconhecer o entusiasmo com que conduzia cada passeio.
Só mais tarde percebi que Stephen, Caroline e Will representavam três gerações muito diferentes. Uma jovem que escolhia voltar. Um pai de família que permanecia. Um homem que já acumulava uma vida inteira de histórias e não pensava em partir. Nenhum deles descreveu o Alasca como um lugar fácil. Todos falaram do frio, das distâncias, do clima imprevisível e das dificuldades. Ainda assim, os três compartilhavam algo em comum: um profundo sentimento de pertencimento.
Talvez porque viver ali signifique compreender, todos os dias, que fazemos parte de algo muito maior do que nós mesmos.
Passei semanas no Japão aprendendo como uma cultura pode moldar uma sociedade. O Alasca me mostrou a pergunta inversa: como uma paisagem pode moldar uma cultura.
Penso também na governança – e, mais especificamente, na sustentabilidade, que tantas vezes tratamos como cálculo: quanto emitir, quanto compensar, quanto reportar. O Alasca ensina outra lógica. Ali, a pergunta não é quanto podemos explorar sem ultrapassar o limite. É como organizamos a vida a partir do limite que já existe. Quando o lixo atrai ursos, Stephen não pergunta como afastar o urso. Pergunta o que fizemos de errado com o lixo. Essa inversão – do controle para a responsabilidade, da gestão de risco para o reconhecimento do limite – é exatamente o que falta a tantos colegiados que discutem sustentabilidade como se fosse apêndice da estratégia, e não a própria régua da decisão. Governança madura não é a que domina seu entorno. É a que sabe, com humildade, qual é o seu verdadeiro lugar dentro dele.
Esta foi a maior lição da minha passagem pelo Alasca. Não a grandiosidade dos glaciares, nem a beleza das montanhas ou da vida selvagem, mas a descoberta de que existem lugares onde o ser humano ainda não ocupa o centro da existência.
É por isso, talvez, que saímos dali um pouco menores. Paradoxalmente, um pouco maiores também.



