
- 縁
- En
- O fio do destino: as conexões que a vida tece antes de você entender o que está sendo tecido.
Era quase meia-noite em Kinosaki Onsen.
Caminhávamos, eu de kimono, ele de yukata, pela rua quase deserta, o rio, suas pontes e árvores refletidas na água escura. Uma cidade de mil e quatrocentos anos e pouco mais de quatro mil habitantes. Silêncio. Nos equilibrávamos sobre os chinelinhos de madeira que batiam no asfalto.
Pensei: esta é uma das experiências mais completas da minha vida.
Não apenas pela beleza daquele lugar, nem pela tradição preservada em cada gesto, mas porque aquelas vinte e quatro horas pareciam reunir tudo o que nos havia trazido até ali: o lugar, a atmosfera, o cuidado com cada detalhe e, sobretudo, a presença de quem caminhava ao meu lado.
Este ano, Kalil e eu completamos vinte anos de casamento.
Nos conhecemos na Casa do Saber. Um evento com música de Debussy e poesia francesa: o tipo de encontro que hoje reconheço como profundamente nosso, mas que nenhum dos dois havia planejado. Eu era divorciada. Ele, viúvo. Ambos no segundo tempo da vida. Sem imaginar que ainda haveria tanto por viver.
Existe um conceito japonês para isso: En (縁), o fio invisível do destino. As conexões que a vida tece antes de você entender o que está sendo tecido. En não é acaso. É reconhecimento tardio de que havia um desenho.
A Casa do Saber, Debussy, poesia francesa. Tudo aquilo era En. Nós só não sabíamos ainda.
Vinte anos depois, posso dizer com honestidade: construímos uma parceria rara. Não idealizada: toda relação humana tem seus momentos difíceis, e a nossa não é diferente. Mas o saldo é imensamente positivo. Temos admiração profunda um pelo outro e uma cumplicidade que nos ajuda a expandir limites, individuais e como casal.
Foi assim quando decidi mudar completamente minha carreira, desarticular minha agência e embarcar num sabático que incluiu um mestrado internacional e mudou para sempre minha trajetória. É assim quando temos textos importantes a produzir ou decisões difíceis a tomar: contamos um com o outro como mentores que merecem ser ouvidos. Também quando vivemos incertezas ou perdas importantes. Quando planejamos nossas viagens.
Em 2021, tínhamos um plano.
Um cruzeiro de Tóquio ao Alasca, meu sonho há muito tempo. Conhecer o Japão e o Alasca pelo mar, num único programa. Compramos as passagens. A pandemia chegou. O cruzeiro foi cancelado. A empresa faliu. E nos vimos com um processo para tentar reaver o que havíamos pago.
Em maio de 2025, decidimos embarcar num seminário de imersão no Japão, o ArtDO, uma proposta do meu grupo de estudo Virtuous Company Consultoria e Educação Executiva. Datas definidas: 20 de maio a 3 de junho. Kalil não conhecia o grupo, não conhecia o programa. Topou. Participou com abertura genuína e integração total, mais uma das razões pelas quais esse casamento funciona.
Em outubro de 2025, chegou uma mensagem inesperada. A nova proprietária do navio oferecia crédito para realizar a viagem em até um ano. Abrimos a programação. O cruzeiro com início em Tóquio partiria no dia 12 de junho, nove dias após o final do seminário. Coincidência? Só depois entendemos que, no Japão, isso tem um nome: En.
Uma viagem que deveria durar três semanas em 2021, tornou-se quarenta e dois dias em 2026. A mais longa que já fizemos. E a mais carregada de sentido: celebração dos nossos vinte anos, realização de um sonho que a pandemia havia guardado, e continuação de uma imersão que começou nos templos do Japão e seguiu pelo Oceano Pacífico até o Alasca.
Mas deixa eu voltar a Kinosaki.
No final do seminário, em Osaka, tínhamos dois dias livres antes de seguir para Kyoto. O plano era ir com amigos a Hiroshima e Miyajima. Compramos os tickets, reservamos o hotel. Um tufão fechou tudo.
Precisávamos de uma alternativa. Curiosamente foi um assistente de IA que sugeriu Kinosaki Onsen depois de compreender nosso perfil e preferências. Não tínhamos recebido nenhuma outra indicação. Confiamos.
O ryokan tem mais de cento e sessenta anos e está sob a gestão da sétima geração da mesma família. O quarto, espaçoso, confortável e minimalista, com vista para o jardim. A chegada com cerimônia do chá. Dois yukatas para cada um. Um kimono lindo para mim, com a ajuda de uma assistente que me vestiu com paciência e cuidado. O kaiseki servido no quarto, etapa por etapa, sem pressa, com os melhores sabores. Um dos jardins mais bonitos que visitei no Japão. E depois, o onsen: grandes piscinas de água quente correndo pelas pedras, sob a copa das árvores.
Saímos de lá com uma promessa: voltaremos. Para celebrar, mais uma vez, o encontro e a história que estamos cocriando.
A vida ainda me trouxe outro presente. Não tive filhos. Mas Kalil me deu dois enteados e quatro netos que nasceram “na minha gestão”. Portanto, são meus. Questão de amor e de governança.
Talvez En funcione assim: não um plano alternativo, mas um presente que supera qualquer plano.
Foram vinte anos. Um encontro com Debussy. Uma pandemia que adiou um sonho. Um tufão que abriu uma porta. Um ryokan que não sabíamos que existia. Um oceano que esperava. E um horizonte sem limites. Uma vida que segue se desvendando.
O fio estava lá o tempo todo.



