
Durante muito tempo, comunicar era uma escolha. Hoje, é inevitável. E isso muda tudo.
Sou de uma época em que as organizações decidiam o que seria comunicado, se uma informação viria a público ou não, se um problema seria revelado ou abafado. Havia uma centralidade do poder: na presidência da empresa, no governo, na direção da comunicação. Mas esse cenário já não existe.
Vivemos num tempo em que a transparência não é mais escolha. Ela acontece com ou sem planejamento. A informação circula, o vídeo vaza, o áudio explode em grupos de WhatsApp, e a narrativa já se forma antes mesmo do pronunciamento oficial.
Essa virada não é apenas tecnológica. É política e ética. Com a descentralização da comunicação, também se descentralizou o poder. Se antes o poder era hierárquico, hoje ele está nas mãos de quem grava um vídeo dentro da empresa, de quem denuncia anonimamente, de quem compartilha um print. O poder é digital, móvel, informal — e muitas vezes anônimo.
Isso cria um cenário de altíssima exposição para pessoas, marcas e instituições. Um CEO pode perder o cargo em poucas horas. A reputação de uma organização pode desmoronar por conta de um comportamento incoerente — ou de uma comunicação desalinhada aos seus valores.
O grande desafio é que nem sempre fomos preparados para esse poder. O uso ético e consciente da comunicação precisa acompanhar esse novo contexto. Transparência não significa contar tudo indiscriminadamente. Significa informar o que é necessário para quem precisa saber, e nunca ocultar o que é essencial para aqueles que podem ser impactados. É essa coerência entre discurso e prática que fundamenta a governança sólida.
Não dá mais para comunicar para “parecer” responsável. A reputação agora é construída no detalhe, na ação cotidiana, na verdade que sustenta a fala. O cenário da comunicação mudou radicalmente. Mas isso não significa caos, significa amadurecimento. O convite é claro: desenvolver líderes, conselheiros, gestores e profissionais que compreendam a comunicação como um ativo estratégico, ético e coletivo.
Transparência não é mais uma decisão da alta liderança. É um fato social. E diante dele, só nos resta uma resposta legítima: comunicar com clareza, com responsabilidade e com propósito.



