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Toposofando: os lugares também ensinam

Toposofando: os lugares também ensinam

Escrevo este texto na madrugada antes de desembarcar no Alasca. (ao terminar o texto, abri a cortina e me deparei com a imagem que ilustra este post)

Desde que publiquei meu primeiro relato desta viagem, recebi mensagens, comentários e pedidos de conexão que me alegraram. Muitas pessoas disseram se interessar pelo tema, outras compartilharam experiências parecidas, algumas contaram de viagens que marcaram suas vidas e outras falaram de um desejo antigo de conhecer mais do mundo.

Foi uma ótima surpresa.

Percebi então que, antes de continuar contando as histórias desta jornada, talvez valesse a pena explicar melhor de onde nasce esse impulso que me acompanha há tantos anos e que agora dá nome a esta editoria.

Afinal, o que é Toposofando?

A palavra não existe no dicionário. É uma invenção afetiva, inspirada em um conceito criado pelo sociólogo italiano Massimo Di Felice, amigo querido e um dos pensadores que mais influenciaram minha forma de compreender a relação entre aprendizagem, território e experiência.

Massimo criou o termo Toposofia para expressar uma ideia tão simples quanto profunda: os lugares ensinam.

Aprendemos com os livros, com os professores, com as pessoas e com a experiência. Mas aprendemos também com as cidades que atravessamos, as paisagens que contemplamos, as culturas que nos acolhem e até com o desconforto de nos vermos estrangeiros. Quando nos deslocamos fisicamente, algo também se desloca dentro de nós. Nossa percepção se amplia, nossas certezas são questionadas e aspectos de nós mesmos que permaneciam adormecidos muitas vezes ganham contorno e significado.

Conheci esse conceito em 2014, quando participei de uma imersão organizada por Massimo, pelo Instituto Toposofia e pela Ideia Sustentável. Passamos uma semana em Paris com um pequeno grupo e uma agenda extraordinária. Tivemos aulas na Sorbonne com mestres como Edgar Morin, Michel Maffesoli, Stéphane Hugon e o próprio Massimo. Mas o aprendizado não terminava quando as aulas acabavam. Ele seguia pelas ruas da cidade, ocupava cafés, museus e restaurantes escolhidos não apenas pela qualidade de sua cozinha, mas também por sua relevância histórica e sociológica. As conversas iniciadas em sala continuavam durante horas, assumindo a própria cidade como parte do processo de aprendizagem.

Vieram depois outras jornadas, especialmente em Roma, onde tivemos o privilégio de explorar a cidade guiados por Massimo e de conviver com pensadores como Domenico De Masi, Derrick de Kerckhove, Alberto Abruzzese e Mario Pireddu. Foram experiências intelectualmente marcantes, mas, acima de tudo, experiências humanas. Foi ali que percebi que a Toposofia não era apenas um conceito interessante. Ela dava nome a algo que já fazia parte da minha vida muito antes de eu conhecê-la.

Viajar nunca foi apenas uma forma de conhecer novos lugares. Sempre foi uma maneira de aprender, ampliar repertórios, desafiar certezas e olhar para o mundo — e para mim mesma — por outros ângulos. Talvez por isso eu tenha tomado a liberdade de transformar Toposofia em verbo. E depois em gerúndio.

Toposofar.

Toposofando.

Porque esse aprendizado nunca termina.

Viajar dessa forma não foi algo que simplesmente aconteceu. Foi sendo construído ao longo da vida. Tive parceiros que compartilhavam essa curiosidade pelo mundo, escolhi uma carreira que me deu mais autonomia sobre meu tempo e minhas decisões e fiz opções que me permitiram investir muito em experiências e formação. Reconheço a sorte, os privilégios e as oportunidades presentes nessa trajetória e sou profundamente grata por eles. Também sei que cada pessoa constrói seus próprios caminhos de descoberta. Este foi o meu.

Se existe um fio que conecta todas essas viagens, não é a distância percorrida nem a quantidade de lugares visitados. É a curiosidade. A vontade de compreender melhor os lugares, as pessoas, as culturas e, por meio delas, compreender um pouco melhor a mim mesma.

Não acredito que viajar seja a única forma de ampliar horizontes. Muitas pessoas realizam jornadas igualmente transformadoras por meio da arte, dos livros, da espiritualidade, do trabalho, das relações ou da própria experiência cotidiana. Este é apenas o caminho que encontrei.

É também por isso que decidi criar esta editoria. Não para colecionar destinos nem oferecer roteiros, mas para compartilhar algumas perguntas, descobertas e reflexões que surgem pelo caminho.

Neste espaço, vou contar algumas dessas histórias. De quando, ainda jovem, atravessei o oceano para morar em Florença e nunca mais fui a mesma. De um casamento na Índia que me apresentou outras formas de compreender rituais, tradição e pertencimento. Das conversas e descobertas que vivi na Noruega ao tentar entender o que sustenta uma sociedade reconhecida pelo bem-estar e pela confiança. Dos encontros, aprendizados e inquietações que marcaram minha participação em seis Conferências do Clima da ONU. Da sensação de espanto diante da vastidão da Islândia, onde tive a impressão de que o céu era maior do que em qualquer outro lugar. Ou da alegria quase infantil que sinto ao mergulhar nas águas transparentes de Alagoas e lembrar que não é preciso cruzar o planeta para ser profundamente tocada por um lugar.

Histórias muito diferentes entre si, mas unidas pela mesma curiosidade que continua me colocando em movimento.

Se você chegou até aqui por causa de uma dessas conexões recentes, seja muito bem-vinda, muito bem-vindo.

Fico feliz por ter companhia nessa jornada.

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