
Preparar-se para o pior. Trabalhar sempre pelo melhor.
- 静寂
- Seijaku
- A quietude interior que precede toda decisão sólida: o silêncio que escuta antes de agir.
Quase nunca a vida nos oferece a segurança de enxergar toda a rota antes da partida. Existem pessoas que preferem planejar cada detalhe com antecedência, e outras que arriscam com menos preparo. Mas, em qualquer um dos casos, o imponderável, o imprevisível, a surpresa sempre encontram uma brecha. Muitas vezes é preciso decidir com o que se tem: um mapa incompleto, um destino e um número maior de perguntas do que de respostas.
Pensei muito nisso durante esta travessia entre o Japão e o Alasca. Uma experiência radical, que é deixar o porto para trás, tendo pela frente sete dias de oceano aberto, sem escalas e sem qualquer porto no caminho. Sabíamos de onde tínhamos saído e qual era o destino, mas tudo o que existia entre um ponto e outro permanecia fora do nosso controle, submetido às forças da natureza: marés, ventos, chuvas.
A experiência me fez perceber que costumamos exaltar a coragem como a grande virtude de quem parte. Coragem importa. Mas não é o que sustenta a travessia. O que nos permite avançar quando o horizonte é incerto é a confiança. A confiança nas condições do momento e a confiança no discernimento que nos guia.
Neste caso, decidi embarcar depois de checar cuidadosamente as condições para a viagem e a referência de outras nove viagens com a mesma companhia. Eu sabia que embarcaria em um navio preparado para enfrentar o oceano, com tecnologia adequada, um capitão experiente e centenas de profissionais trabalhando para que tudo funcionasse. Equipes de manutenção, suprimentos, hotelaria, saúde, alimentos e bebidas, entretenimento e segurança realizam diariamente um trabalho que a maioria dos passageiros sequer percebe, mas que sustenta cada milha percorrida.
No convés, sentindo o vento frio no rosto e olhando para a imensidão do oceano, pensei: como se sentirá o capitão ao perder a terra firme de vista, sabendo que centenas de pessoas dependem das suas decisões?
Durante a visita à ponte de comando, pude perguntar diretamente a ele. Contou que, antes de qualquer partida, o sentimento é sempre o mesmo: muita responsabilidade. Por isso é preciso checar todos os planos, rever todas as rotas e preparar-se sempre para o pior. Disse que o cuidado nunca muda; o que muda é a autoconfiança que se sustenta na prática. Quanto mais experiência se acumula, mais segurança se tem na qualidade do próprio preparo. Contou que aprendeu a navegar antes de existir GPS e que, ainda hoje, com toda a tecnologia a bordo, sai da ponte de comando para sentir a força do vento, a temperatura e a umidade antes de decidir. As telas ajudam. Mas não substituem a experiência de quem já operou sem elas.
Curiosamente, não encontrei naquele capitão a confiança de quem acredita dominar o mar, mas a serenidade de quem aprendeu a jamais subestimá-lo.
Era essa experiência, construída ao longo de anos no mar, que formava uma outra dimensão da confiança: menos visível e talvez ainda mais importante do que qualquer instrumento. Aquela que nos ajuda a perceber se este é, de fato, o momento certo para partir. Os princípios Zen chamam isso de Seijaku: a quietude interior que antecede toda decisão sólida, o silêncio que permite escutar antes de agir. Porque nem toda oportunidade pede um sim, e nem tudo precisa começar agora. Às vezes, a decisão mais sábia é esperar, preparar melhor o barco, fortalecer a tripulação ou simplesmente reconhecer que ainda não estamos prontos. Nem toda partida adiada é uma oportunidade perdida.
Existe coragem em partir, mas também existe coragem em ficar, esperar e até mesmo desistir.
Celebramos quem embarca. Falamos menos sobre o discernimento necessário para escolher a hora certa, e menos ainda sobre a coragem de quem decide não partir. Talvez a qualidade de uma decisão não esteja na ausência de riscos, mas na confiança que somos capazes de construir ao nosso redor e dentro de nós. Confiança nas pessoas, nos processos, na preparação e nos valores que sustentam a jornada. E confiança naquilo que não cabe em planilhas nem previsões: nossa percepção, nossa intuição e a energia com que escolhemos seguir.
É justamente isso que liderança e governança têm em comum. Nem liderança nem governança eliminam a incerteza. Ambas existem para criar as condições que tornam possível avançar apesar dela. A diferença entre uma organização que se paralisa diante do desconhecido e outra que consegue navegar está, quase sempre, na qualidade da confiança construída antes de zarpar.
O comandante contou que seu melhor recurso é ter uma equipe preparada, envolvida e engajada. Disse que, na ponte de comando, existe um compromisso claro: todos são estimulados a trazer pontos de vista diferentes, e discordar faz parte da responsabilidade coletiva. Essa, para ele, é a melhor forma de liderar: com humildade e, ao mesmo tempo, preparando a equipe para os próximos passos. É comum perguntar: “O que vocês fariam se estivessem no meu lugar?”. A autoridade mais sólida é a que sabe se calar para ouvir.
Na navegação existe uma regra interessante: não importa quão experiente seja o capitão, ou quantas vezes já tenha atracado no mesmo porto, a lei internacional exige que um profissional local, chamado de prático no Brasil, suba a bordo para orientar a manobra e, em casos extremos, assuma a direção do navio, garantindo segurança na atracagem e na partida. Muitas vezes precisamos do outro, de quem conhece as especificidades daquele lugar, com seus obstáculos e peculiaridades. Quando perguntei sobre isso, o capitão disse que é uma operação regulada por lei, que pode ser muito útil, mas que, em última instância, a responsabilidade continua sendo dele.
Perto do fim da travessia, quase na despedida e satisfeito por termos chegado seguros e felizes, o capitão me disse sorrindo: “Nos preparamos para o pior, mas trabalhamos sempre pelo melhor.” Talvez seja essa a frase que resuma toda travessia bem-sucedida, e toda decisão de liderança que vale a pena.
No fim, toda travessia começa muito antes da partida. Ela começa quando somos capazes de responder, com honestidade, a algumas perguntas simples:
-Por que vamos para onde vamos?
-Temos razões para confiar nesta travessia?
-Construímos as condições para atravessar aquilo que jamais poderemos controlar?



