
Tenho ouvido com frequência, em mesas de jantar e corredores de eventos, profissionais experientes dizerem que querem entrar para um conselho. Currículos sólidos, trajetórias respeitáveis, redes inteligentes. A pergunta que faço nesses momentos é quase sempre a mesma: e a assembleia do seu prédio, você frequenta? A resposta, quase sempre, vem acompanhada do mesmo riso meio constrangido: “imagina, fujo dessas reuniões”.
A cena se repete tanto que virou sintoma. E o sintoma diz mais sobre governança do que muitos cursos.
A maior escola de governança disponível hoje no Brasil fica no térreo do seu prédio. É gratuita. E a maioria dos candidatos a conselheiro não a frequenta.
Em um conselho de empresa, há filtragem prévia: currículo, perfil, diversidade calculada, fit com o board. No condomínio, não há filtro. O vizinho do 9º andar estará lá para te confrontar, independentemente de você gostar dele, de terem algo em comum ou da forma como ele educa o cachorro. Os interesses divergem, os estilos de vida podem ser incompatíveis, as gerações certamente são diferentes, e ninguém escolheu ninguém. Ainda assim, é preciso construir um pacto coletivo capaz de sustentar o convívio por anos.
Isso é governança em estado bruto. Sem placa de aço, sem código de conduta emoldurado, sem consultoria costurando frases de impacto na parede. Apenas pessoas, regras e a difícil arte de fazê-las conviver.
Falo de dentro. Durante seis anos, fui o que chamavam, com algum humor, de “primeira-dama do prédio”. Insisti para que meu marido assumisse a sindicância, mesmo com a agenda já saturada, porque o argumento era de governança, não de gestão: cuidar do valor do nosso patrimônio, da qualidade de vida cotidiana, do corpo de funcionários e da comunidade de moradores ao nosso redor.
Patrimônio, vivência e gente. Esse tripé, que parece doméstico, é exatamente o que toda boa governança corporativa tenta equilibrar. E quase nenhuma consegue.
A analogia ajuda a enxergar. A convenção é o estatuto. O regimento interno são as políticas. A assembleia é a assembleia geral. O síndico é o executivo principal, mais próximo do CEO do que do presidente do conselho. O subsíndico e o conselho consultivo cumprem o papel do board. O conselho fiscal se torna o comitê de auditoria. O zelador e a equipe representam as operações. As comissões de obra, pets e festas funcionam como comitês temáticos. E todos os moradores são acionistas: têm voto, voz e pleno direito de desagradar.
A analogia é imperfeita, como toda boa analogia. Mas é justamente nessa imperfeição que ela ensina. Governança real não é organograma. É o que acontece entre as caixinhas.
O currículo silencioso
E o que acontece entre as caixinhas é um currículo que nenhum MBA cobra. Cobra escutar quem você não escolheu. Cobra negociar com restrição orçamentária real, não com uma planilha em modo de simulação. Cobra mediar interesses divergentes sem se tornar refém de nenhum deles. Cobra exercer autoridade legítima sem cair no autoritarismo. Cobra sustentar decisões impopulares quando a razão exige e voltar atrás quando a evidência muda. Cobra identificar riscos antes do laudo e distinguir reclamação de sintoma estrutural.
Cobra, sobretudo, paciência. Aquela que não cabe em apresentações executivas e que manual nenhum consegue ensinar.
Quem aprende isso ali aprende para a vida. Quem foge disso talvez devesse pensar duas vezes antes de pleitear uma cadeira maior.
Por que, então, tantos que desejam um assento em conselho evitam a assembleia do prédio? A resposta é desconfortável: porque a assembleia não cabe no LinkedIn. Não tem jeton, não tem prestígio, não tem aura. Tem o vizinho que grita, a infiltração do 4º andar, a discussão sobre as plantas do hall.
O conselho corporativo tem outro figurino: café decente, slides bem-feitos, palavras em inglês, valores impressos na parede. Mas o segundo não é mais nobre que o primeiro. Apenas mais glamouroso. E governança raramente se aprende onde há conforto.
A prova final é a saída
Se o teste de admissão de um conselheiro fosse honesto, incluiria uma pergunta simples: você está pronto para sair?
Quando o mandato do meu marido terminou, moradores e equipe pediam continuidade. A gestão havia funcionado: atualizações nas áreas comuns, melhorias relevantes nas condições de trabalho da equipe, transparência nas contas.
Mesmo diante do pedido coletivo, ele preparou e coordenou a própria sucessão e segue como subsíndico para acompanhar a transição. Não porque devesse. Porque é assim que se faz.
Boa governança não é apenas saber entrar. É saber sair, e sair de um jeito que permita ao próximo fazer mais e melhor do que você. Esse é o teste que separa quem cuida do papel de quem cuida do cargo.
Antes de pleitear um assento em um conselho de empresa, sente-se na cadeira que já é sua. Vá à assembleia. Leia a convenção. Pergunte sobre a inadimplência. Acompanhe as contas. Discorde com elegância. Vote no que considera certo, mesmo quando estiver em minoria. Aprenda a sustentar uma decisão difícil olhando nos olhos de quem mora ao seu lado.
Somos todos agentes de governança. E a primeira oportunidade está, literalmente, onde a gente mora.



