
和 | Wa: Harmonia — a coesão do coletivo, a responsabilidade com o espaço e com o grupo.間 | Ma: O espaço entre — presença, posicionamento, aquilo que existe entre as coisas.
Brasil x Japão. Confesso que temi esse jogo.
Não porque duvidasse da seleção brasileira, mas porque, depois de passar semanas mergulhada na cultura japonesa, eu já não conseguia olhar para o Japão apenas como um adversário de Copa do Mundo.
Conhecer um país muda a forma como olhamos para ele. Depois de caminhar por suas cidades, conversar com sua gente e tentar compreender seus valores, a camisa da seleção deixa de representar apenas um time. Passa a representar uma cultura.
Ao longo da viagem, fui descobrindo um Japão que fez da disciplina um hábito, da busca pela excelência uma prática cotidiana e da honra um compromisso com algo maior do que o próprio indivíduo. Em diferentes momentos, percebi que representar a família, a organização ou o país não é apenas motivo de orgulho. É uma responsabilidade que parece orientar escolhas, comportamentos e relações.
Talvez por isso, quando Brasil e Japão se encontraram nas oitavas de final da Copa do Mundo, senti um respeito diferente antes mesmo do apito inicial. E o jogo confirmou exatamente aquilo que eu imaginava.
O Japão entrou em campo com uma organização tática impressionante. Embora tenha uma história muito mais recente no futebol, apresentou uma equipe extremamente preparada, disciplinada e segura. Sua defesa parecia ocupar cada espaço do campo com precisão — o que os japoneses chamam de Ma (間): a consciência de que o espaço entre as coisas não é vazio, mas oportunidade a ser administrada. Não foi uma atuação construída apenas para aquela partida. Foi o resultado de um projeto de longo prazo. Há décadas, a Federação Japonesa de Futebol trabalha com a meta de formar uma geração capaz de conquistar uma Copa do Mundo até 2050, investindo continuamente na formação de atletas, treinadores e em uma identidade própria de jogo. Enquanto assistia à partida, era impossível não reconhecer, dentro de campo, muitos dos valores que eu acabara de encontrar fora dele.
O gol japonês, ainda no primeiro tempo, aumentou a tensão e trouxe uma pressão extra para a seleção brasileira. Apesar das inúmeras tentativas, o empate não veio antes do intervalo. Mas o Brasil voltou para o segundo tempo diferente. Mais intenso, mais confiante e disposto a buscar o resultado até o último minuto. Vieram grandes jogadas, momentos de pura emoção e demonstrações do talento que sempre marcou o nosso futebol, e o gol de empate. Vini Júnior protagonizou o que os locutores chamariam de “o gol perdido mais bonito da Copa”, e, quando tudo parecia caminhar para um desfecho dramático, veio o gol da virada.
Enquanto assistia àquela sequência de lances, pensei que talvez o futebol seja uma das mais belas expressões da identidade de um povo. Se disciplina, foco, preparo e persistência constroem equipes extraordinárias, paixão, criatividade e talento também são capazes de mudar o rumo de uma partida. Naquele momento, o Brasil e o Japão não estavam apenas disputando uma vaga. Cada seleção parecia revelar, dentro de campo, aquilo que sua cultura cultivou ao longo de décadas.
O apito final trouxe sentimentos opostos. Para nós, uma explosão de alegria. Para os japoneses, uma tristeza profunda. Os jogadores permaneceram em campo, muitos deles chorando. Foram consolados pelos brasileiros e ouviram atentamente as palavras do treinador, reunidos em círculo antes de deixar o gramado. Aquela cena me chamou a atenção porque parecia dar continuidade a tudo o que eu havia observado durante a viagem. A derrota fazia parte do caminho, mas não diminuía o compromisso com o grupo, com o aprendizado e com o propósito maior.
Depois veio a imagem que o mundo já aprendeu a admirar. Enquanto os brasileiros celebravam cantando, dançando e transformando a vitória em festa, os torcedores japoneses recolhiam silenciosamente o lixo das arquibancadas antes de deixar o estádio. Não era um gesto para as câmeras. Era apenas a expressão natural de um valor profundamente incorporado à sua cultura: Wa (和), a harmonia que começa no respeito ao espaço coletivo.
Esse foi mais um presente que o Japão me deu.
Antes da viagem, eu teria assistido apenas a um grande jogo de futebol. Depois dela, assisti ao encontro de duas culturas que encontraram, cada uma à sua maneira, uma forma muito bonita de amar e representar o próprio país através do esporte.
Torci pelo Brasil com todo o meu coração.
Mas confesso que, depois de conhecer o Japão, passei a admirar ainda mais o país que estava do outro lado do campo.
Este texto faz parte da série Toposofando, sobre o que os lugares ensinam.



