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Kushiro: As lições de um porto de passagem

Kushiro: As lições de um porto de passagem

  • 一期一会
  • Ichigo Ichie
  • Uma vez, um encontro — cada momento é único e irrepetível.

 

Vuuuh. O apito do navio soou longo, grave, quase cerimonial.

Enquanto nos afastávamos lentamente do cais, ainda era possível ouvir a música de despedida e ver os braços acenando em nossa direção. Já vivi essa cena algumas vezes e ela sempre me emociona. Mas, naquele momento, havia algo diferente. Zarpávamos de Kushiro, no extremo norte do Japão, rumo ao Alasca. Nossa próxima parada seria Seward, sete dias depois. Entre um porto e outro, nenhum pedaço de terra. Apenas o Oceano Pacífico e o tempo necessário para deixar que tudo o que havia sido vivido encontrasse, aos poucos, o seu lugar.

Durante esta viagem conheci um conceito japonês que me acompanhou até o navio: Ichigo Ichie. A ideia de que cada encontro acontece apenas uma única vez e jamais poderá ser reproduzido exatamente da mesma forma. O apito que ouvi em Kushiro não voltará. Aquela despedida não se repetirá. E eu também já não sou exatamente a mesma pessoa que deixou o Brasil.

Curiosamente, Kushiro nunca esteve entre os lugares que eu sonhava conhecer. Era apenas um porto de passagem, uma pequena cidade pesqueira no extremo norte da ilha de Hokkaido. No entanto, foi justamente ali que vivi duas experiências que permaneceram comigo muito depois de o navio deixar o cais.

A primeira aconteceu no parque de preservação dos tsurus, os elegantes grous-de-coroa-vermelha que se tornaram um dos maiores símbolos do Japão. Há séculos, eles representam longevidade, fidelidade e boa fortuna. Conta a tradição que vivem mil anos e, como costumam formar casais para toda a vida, passaram também a simbolizar lealdade e vínculos duradouros. Eu já conhecia os delicados origamis em forma de tsuru, talvez a imagem mais difundida da cultura japonesa no mundo, mas desconhecia a história que lhes deu um significado ainda mais profundo.

Depois da bomba atômica de Hiroshima, uma menina chamada Sadako Sasaki, gravemente adoecida pela radiação, começou a dobrar tsurus de papel inspirada na antiga tradição segundo a qual quem dobrasse mil deles teria um desejo realizado. Seu desejo era viver. Sadako morreu aos doze anos, mas sua história atravessou fronteiras e transformou o tsuru em um símbolo universal de esperança e de paz. Confesso que nunca mais olharei para um origami da mesma maneira.

A segunda lembrança nasceu em um lugar bem popular: o mercado público de Kushiro. Apesar das muitas refeições extraordinárias que fizemos ao longo da viagem, em hotéis e restaurantes excelentes, é daquele mercado simples, frequentado pelos moradores da cidade, que guardo uma das experiências gastronômicas mais marcantes de todo o percurso.

No fundo do galpão, bandejas exibiam o resultado da pesca da madrugada. Ali estavam as famosas vieiras de Hokkaido, consideradas entre as melhores do mundo, ao lado de enormes king crabs, salmão, ostras, polvos, lulas e diferentes cortes de sashimi organizados com a precisão estética, marca da cultura japonesa. O ritual era simples e irresistível. Pegávamos uma tigela de arroz — ou não — e caminhávamos entre as bancas nos servindo livremente do que desejássemos e na quantidade que quiséssemos. Cada escolha ia compondo o prato, pedaço por pedaço, como uma pequena criação pessoal. Ao final, bastava passar pelo caixa e procurar um lugar em uma das mesas coletivas.

Ainda hoje, quando penso naquelas vieiras extraordinárias, não me lembro apenas do sabor delicado ou da textura quase amanteigada. Lembro-me do ambiente, das conversas ao redor, do burburinho dos vendedores, da simplicidade da experiência e da sensação de estar compartilhando, ainda que por poucas horas, a rotina daquela pequena cidade portuária.

Quando penso em Kushiro, não me vêm primeiro à memória o porto nem o navio. Lembro-me dos tsurus e do mercado. Um preserva um símbolo que atravessou séculos. O outro preserva um modo de viver que continua acontecendo todos os dias.

Enquanto o Japão desaparecia lentamente no horizonte e o Pacífico ocupava toda a paisagem, compreendi, mais uma vez, o sentido da Toposofia. Os lugares realmente ensinam, mesmo os que nunca planejamos conhecer.

Foi assim com Kushiro.

Quais lugares inesperados já ensinaram algo a você?

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