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Eu vi o homem pisar na Lua

Eu vi o homem pisar na Lua

Nos últimos dias, a Lua voltou ao centro das conversas. Uma nova missão da NASA recoloca a humanidade em rota lunar. Desta vez, sem pouso. A proposta é ir, contornar e voltar. As notícias me levaram direto para aquela noite, quase 57 anos atrás.

Era julho de 1969. Falava-se da Lua o tempo todo: na escola, no mercado, com os vizinhos. Todo mundo falava da Apollo 11. Na televisão em preto e branco, com chuviscos e interferências, repetiam-se imagens do foguete cuspindo fogo e subindo, subindo, subindo. Era hipnótico.

A pergunta circulava de casa em casa: “Você vai ver o homem chegar na Lua?” Alguns diziam que não perderiam por nada. Outros achavam tarde demais. Era o caso lá de casa.

Eu pedi para assistir e insisti, mas a resposta foi não. Ainda assim, havia algo mais forte: a minha curiosidade. Todos foram para a cama, as luzes se apagaram e eu fiquei acordada, quietinha, esperando o momento certo.

Levantei com cuidado e saí do quarto na ponta dos pés para não acordar minha irmã. Atravessei a cozinha desviando das cadeiras, sentindo o frio do piso nos pés. Passei pelo corredor, pelo banheiro, até chegar, finalmente, à sala. Eram poucos metros, mas pareciam uma travessia arriscada.

Antes de ligar a televisão, parei na porta do quarto dos meus pais. Ouvi o suspiro da minha mãe e o ronco do meu pai. Tudo em ordem. Fui então até a TV, um gabinete de madeira envernizada, com comandos dourados, e girei o botão grande e pesado.

Como já estava na TV Tupi, dei de cara com a imagem estranha: uma estrutura branca, com hastes finas como pernas, apoiada sobre uma superfície árida, no meio do nada.

Deitei no tapete e fiquei no escuro, bem perto da tela. As fibras ásperas pinicavam nas costas. Coloquei as mãos sob a nuca e fiquei ali, completamente capturada por aquelas imagens granuladas. Não era uma cena entusiasmante como eu imaginei. Era silenciosa, quase desértica, e eu pouco compreendia dos ruídos que chegavam.

Via a nave, a superfície da Lua e dois homens em roupas estranhas, movendo-se como se o corpo ainda não entendesse aquele lugar. Eu não conseguia desgrudar os olhos e, mesmo sem entender, sentia que aquilo era importante.

Hoje sei que aquele momento, quando Neil Armstrong desceu, aconteceu às 23h56, no horário de Brasília. Mas, na minha memória, durou meia madrugada, porque não era apenas o tempo do relógio, era o tempo da descoberta.

É curioso perceber que, ali, já havia algo de observadora em mim. Um impulso de buscar e guardar o que me parecia relevante.

A frase daquela noite ecoa até hoje: “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.”

Mais de meio século depois, voltamos à Lua. Mas será que demos, de fato, esse salto?

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