
Se você estivesse no lugar do seu cliente, contrataria você?
Falta de tempo virou uma explicação elegante.
Serve para tudo: não dormir direito, não treinar, não ler e, principalmente, não avançar em projetos autorais, ideias que poderiam virar negócio, mudanças de rota que acabam não saindo do lugar.
A frase é confortável, mas raramente é verdadeira. O problema quase nunca é tempo. É alocação e, antes disso, decisão.
Durante muito tempo, o que era meu ia ficando para depois, não porque fosse menos importante, mas porque não havia um acordo claro comigo mesma. Clientes, entregas, aulas e demandas legítimas encontravam espaço; o que era meu, não.
Meu primeiro livro só avançou quando isso deixou de ser negociável.
Agora, escrevendo o próximo, a constatação voltou, e ainda mais incômoda: os dias passam e produzo menos do que gostaria.
Para os outros, cumpro prazos, organizo agenda, protejo foco, entrego com qualidade. Mas, quando o projeto é meu, não sustento o mesmo padrão: tudo pode ser negociado e adiado.
Percebi que não era apenas uma questão de disciplina, mas de governança pessoal: ausência de critérios claros para decidir onde colocar meu tempo, minha energia e minha atenção.
Como tenho uma grande entrega pela frente, tomei uma decisão importante: Acabo de me contratar.
Estou assumindo comigo mesma um contrato de entrega, com prazo, prioridade e sem indulgência. Fazer isso para mim não é trivial. Exige mudar o enfoque e tratar meu tempo como ativo e minha atenção como investimento de alto valor, porque é exatamente isso que acontece na prática.
Quem me contrata não paga apenas pelo que eu sei. Paga pelo meu foco, pela minha presença, pela minha capacidade de sustentar um compromisso até o fim. Se isso tem valor para os outros, por que não teria para mim?
Mas existe um ponto ainda mais exigente nessa decisão: se eu não assumo o pagamento pelas minhas próprias horas, continuo dependendo de recursos que vêm de fora — clientes, demandas, convites e urgências, todos legítimos, mas ocupando espaço e, na prática, definindo minhas prioridades.
Contratar a si mesmo exige investimento. Às vezes financeiro, às vezes de tempo, muitas vezes de ambos. Pode significar abrir mão de receita no curto prazo, criar uma reserva para sustentar um período de dedicação ou, ainda, trabalhar mais agora para liberar horas e colher frutos depois.
Não é diferente de poupar para um investimento — a diferença é que aqui o ativo é o que você quer construir. Nem sempre existe condição imediata para isso, mas existe sempre a possibilidade de um plano.
No fim, é uma escolha: tratar o próprio projeto como custo secundário ou como investimento. Assumir esse contrato é, também, assumir um papel: o de cliente de si mesmo, com exigência, clareza e responsabilidade pelas próprias decisões.
Uma hora de atenção real — sem interrupção, sem dispersão, sem desculpa — tem preço. A questão não é organizar a agenda, é sustentar um acordo
Contribuo com excelência para a realização dos projetos dos outros e já fiquei com o gosto amargo da frustração por não conseguir cuidar do que é meu. Não por falta de capacidade, mas por falta de contrato, disciplina e persistência.
Talvez a pergunta não seja “tenho tempo?”. A pergunta que volta é outra: se você estivesse no lugar do seu cliente, contrataria você?



