
A COP é a mais alta instância da governança global. Mas, para a natureza, nenhum poder humano importa. O compromisso da natureza não é com governos, mercados ou fronteiras — é com a vida.
Passei os últimos dias na COP30, em Belém, acompanhando de perto a energia vibrante que tomou a cidade. Nos pavilhões e ruas, milhares de pessoas buscavam caminhos para um futuro possível, enquanto um grupo seleto de líderes tentava costurar — palavra por palavra, vírgula por vírgula — um novo acordo climático. Um acordo que precisa, urgentemente, estar à altura da emergência que já vivemos.
Mas há algo que ainda não conseguimos encarar com franqueza: muitas decisões climáticas continuam sendo orientadas não pelo futuro da humanidade, mas por interesses financeiros imediatos. Interesses que guiam escolhas de curto prazo, mesmo quando o risco é de longo alcance.
E enquanto negociamos metas, taxas, limites e flexibilidades, a natureza já respondeu. E continuará respondendo. Ciclones, tempestades, ondas de calor, inundações: nenhum desses fenômenos negocia.
Não há reunião de última hora, não há posição de governo, não há exército armado que convença um furacão a desviar da nossa casa, da nossa cidade, do nosso país. A natureza opera numa hierarquia acima da nossa. Nós somos apenas um fator dentro do seu mecanismo de ajuste. E, ainda assim, insistimos em agir como se pudéssemos ditar as regras.
Não se trata de alarmismo; trata-se de realidade.
Já existem bilionários investindo em bunkers e planos de fuga — uma visão de futuro triste, sombria e solitária. Prefiro acreditar no oposto: na capacidade humana de cooperação, coragem moral e responsabilidade compartilhada.
Há também um paradoxo que não pode mais ser ignorado: nos últimos anos, várias nações aumentaram massivamente seus investimentos em armamentos, enquanto os recursos destinados à mitigação das mudanças climáticas seguem insuficientes, disputados e lentamente negociados. É perturbador — e simbólico — que o mundo consiga mobilizar trilhões para a guerra, mas hesite em financiar a sobrevivência.
A COP não deveria ser o palco de disputas semânticas ou financeiras, mas o ponto de virada da nossa capacidade de agir. Porque esta negociação não define apenas metas. Define o mundo em que viveremos — ou deixaremos de viver.
Nos minutos finais desta COP30, o que está em jogo não é apenas quanto carbono emitiremos, quanto desmataremos ou o quanto poluiremos. O que está em jogo é a resposta inevitável da natureza às nossas escolhas. E essa resposta não depende do nosso consenso.
A natureza não tem compromisso com os humanos. Ela tem compromisso com a vida.
A pergunta é: Nós também temos?



