
A evolução do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC revela uma profunda transformação na mentalidade empresarial do Brasil. O que começou em 1999 com a missão de “proteger o patrimônio e maximizar o retorno do investimento dos acionistas”, hoje, em sua versão de 2023, evoluiu para um sistema que busca “a geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral”. Essa jornada não foi apenas uma mudança de palavras, mas uma redefinição do propósito da governança.
No início, o foco estava centralizado no Conselho de Administração e na defesa dos interesses dos proprietários. A partir de meados dos anos 2000, o conceito amadureceu para um sistema mais complexo, integrando diretoria e órgãos de controle. O verdadeiro ponto de inflexão, no entanto, ocorreu em 2015, quando a linguagem da governança se expandiu para incluir as “demais partes interessadas” e o “bem comum”, introduzindo uma perspectiva mais ética, longeva e socialmente consciente ao mundo dos negócios.
A mais recente edição, de 2023, é fruto de um intenso processo de reflexão impulsionado por crises globais, pela pandemia e pelo avanço tecnológico. O resultado é um guia menos prescritivo e mais principiológico. Como destacou Cristiana Pereira, coordenadora da edição, a intenção é evitar uma “receita de bolo”, promovendo uma reflexão mais profunda e uma responsabilidade mais autêntica do que o simples seguimento de um checklist. Ao se basear em princípios como integridade, transparência e sustentabilidade, o código agora é aplicável a todos os tipos de organização, e não apenas às sociedades anônimas.
Contudo, transformar esse novo ideal em realidade é um desafio monumental. Defender a geração de valor para a sociedade e o meio ambiente exige um engajamento que vai muito além das formalidades. Como a história nos ensinou, estruturas e regras por si sós não bastam. É preciso uma transformação fundamental no mundo corporativo, com movimentos corajosos de empresas, instituições e cidadãos para que o texto não se perca no papel.
Um processo estratégico de comunicação é fundamental para que essa nova visão se torne prática. Mudar de um sistema focado em acionistas para um que assume responsabilidades perante múltiplos públicos é complexo e oneroso, e naturalmente enfrenta forte resistência ao status quo. O primeiro passo é fazer com que líderes, gestores e conselheiros atualizem seus modelos mentais, abandonando diretrizes passadas. Para muitos que se formaram sob os critérios antigos, a mudança pode parecer desconfortável, mas é a forma mais realista e promissora de preservar seus negócios no contexto atual.
Atender aos interesses apenas dos acionistas é coisa do passado. O futuro exige a integração de um ecossistema complexo, e as organizações que prosperarão serão aquelas que compreenderem e praticarem essa nova, e mais completa, forma de governança.



